Não se preocupem | Mateus 6.25-34

4º Domingo após Pentecostes | Ação de Graças | Comunidade Vida Nova

02/07/2022

 

Amados irmãos, amadas irmãs,

somos um país de pessoas com transtorno de ansiedade. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 3,6% da população mundial apresenta o quadro de ansiedade; no Brasil, o estudo aponta que 9,3% da população possui transtorno de ansiedade. Isso significa um pouco mais de 18 milhões de pessoas1. Esses dados nos colocam como o país com maior índice de ocorrência. Um dos grandes motivos históricos para a consolidação desses dados são as rápidas mudanças de preços e a instabilidade econômica no Brasil. O monstro da inflação continua nos rondando, querendo devorar tudo o que temos e fazer aquilo que ganhamos valer cada vez menos.

Somos um país de pessoas ansiosas. Vivemos constantemente na incerteza do amanhã. Olhamos o preço da carne, do leite e do combustível, fazemos a conta e pensamos: “será que a conta vai fechar no azul no final do mês?” Segundo um levantamento produzido pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), cerca de 19 milhões de brasileiros passam fome e 55% da população apresenta algum nível de insegurança alimentar.2 São irmãos e irmãs da nossa terra que não tem o que comer ou o que dar de comer a seus filhos e filhas. São pessoas que perderam seus empregos durante a crise da Pandemia de Covid-19. Muitas pessoas se mudaram para locais com aluguel mais barato para que possam comprar o que comer.

Todos estamos incertos em relação ao futuro. Quem de nós não se preocupa com o dia de amanhã? Quem de nós não se preocupa se haverá comida em nossa mesa amanhã? Será que haverá aposentadoria para todos quando, daqui há alguns anos, nosso país for composto majoritariamente de pessoas idosas? O Brasil e o mundo estão preparados para isso? Nossas cidades estão preparadas para isso? E em quem vamos colocar a nossa esperança de um futuro melhor para o nosso país?

As palavras de Jesus desafiam o nosso entendimento. Jesus nos convida a não nos preocuparmos. Mas, alguém de nós consegue fazer isso? Alguém de nós consegue não se preocupar com o amanhã? Alguém de nós consegue não ficar ansioso diante das possibilidades de futuro? A verdade é que somos humanos. Faz parte da nossa natureza humana ficarmos preocupados e ansiosos quando sentimos que o nosso futuro e o da nossa família estão ameaçados.

Por isso, Jesus não está falando das preocupações básicas da vida. É legítimo e justo se preocupar com o que comer e vestir. Mas, existe um outro tipo de preocupação que não combina com a fé. Para falarmos disso, vamos dividir a pregação em três partes:

1 NÃO SE PREOCUPAR É CONFIAR NAS PROMESSAS DE DEUS
(v. 25-26)

Jesus não está falando aqui das preocupações básicas da vida, pois é natural nos preocuparmos conosco e com a nossa família; Jesus está falando da preocupação com aquilo que é menos importante e de quando o ser humano confia em tudo e todos, menos em Deus. A preocupação denunciada aqui por Jesus é a preocupação que deixa Deus em segundo plano para que os bens materiais ocupem seu lugar e se tornem o nosso próprio “deus”. Martinho Lutero interpretou esse texto bíblico, dizendo:

Significa pensar somente nesta vida, como enriquecer-se aqui, como ajuntar e aumentar dinheiro e bens, como se fôssemos viver aqui eternamente. Pois comer, beber e vestir-se não é pecado, nem precisar do dinheiro. A necessidade da vida e do corpo exige seu alimento e roupas. Também procurar e adquirir o sustento não é pecado. O pecado consiste na preocupação por essas coisas, isto é, colocar nelas o consolo e a confiança do coração. Pois a preocupação não está nas roupas ou no alimento, e, sim, no âmago do coração; ele não consegue desligar-se disso e se prende a essas coisas, como se diz: “Bens tornam o homem corajoso”. Portanto, preocupar-se significa a mesma coisa que estar preso nisso com o coração.3

Portanto, a preocupação da qual Jesus está falando é aquela que torna os bens um “deus” e que nos causa medo de perdermos esse nosso “deus”. A preocupação tola é aquela que torna as coisas menos importantes as mais importantes de todas; já a preocupação sábia é aquela que sabe o lugar de cada coisa e que obedece ao primeiro mandamento: “Eu sou o Senhor, teu Deus; não terás outros deuses diante de mim”. (Êxodo 20. 2-3). A preocupação sábia é aquela que, diante de Deus, nos leva a administrarmos bem a nossa casa; a preocupação tola é aquela que nos faz ter medo de perder aquilo que transformamos em divindades para nós mesmos.

Por isso, quem é sábio em sua preocupação procurará ajudar também ao seu próximo que passa por necessidades; já a preocupação tola se voltará somente para o acúmulo egoísta de bens. Lutero diz: “quem ama o dinheiro e procura seu próprio proveito não se preocupará muito com o próximo”4. Já quem se preocupa diante de Deus, confia nas palavras do salmista: “O Senhor é o meu pastor; nada me faltará”. (Salmo 23.1).

Portanto, “não se preocupar” significa confiar nas promessas de Deus, apesar das circunstâncias. É crer na provisão divina. É agir para que nós possamos auxiliar aqueles que passam necessidades para que nós mesmos sejamos as mãos de Deus que alimentam o mundo. Afinal de contas, há comida suficiente para todas as pessoas do planeta. A fome só existe por causa do egoísmo que compra mais que o necessário para que depois a comida boa seja jogada no lixo. A fome existe por causa da ganância. Então, troquemos a ganância pela solidariedade, pelo consumo consciente e pelo amor ao próximo, para que nada falte a ninguém. Isto significa confiar nas promessas de Deus.

Por isso, Jesus disse: “Observem as aves do céu, que não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros. No entanto, o Pai de vocês, que está no céu, as sustenta. Será que vocês não valem muito mais que as aves?” (Mateus 6.27). O abandono da ganância e do egoísmo é um convite à liberdade cristã onde, como os passarinhos, podemos voar livres de preocupações desnecessárias, crendo nas promessas de Deus de sustento a todas as suas criaturas. Não sejamos engaiolados por nossas ambições; não nos tornemos escravos de nós mesmos; não confiemos em nossas posses mais que no próprio Deus. Ao contrário, sejamos verdadeiramente libertos por essa palavra. Quem é livre, pode dizer “obrigado” e agradecer fazendo a sua oferta com alegria, e não por obrigação. Ofertar é agradecer; e só pode agradecer quem é verdadeiramente livre.

2 NÃO SE PREOCUPAR É CONFIAR O FUTURO NAS MÃOS DE DEUS
(v. 27-30)

Quem de nós conhece o dia de amanhã? Quem de nós é capaz de dizer com certeza que amanhã estaremos vivos e respirando? Quem de nós pode dizer com certeza que amanhã o nosso coração vai estar batendo?

Essas perguntas são importantes, pois elas nos respondem algo muito libertador: não estamos no controle de nada. E isso não é um problema, mas é uma bênção. Que bom que não temos tudo em nossas mãos; que bom que não dominamos sobre a vida e a morte; que bom que podemos ser livres para vivermos com amor a Deus e ao próximo. Por isso, Jesus diz: “Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida?” (Mateus 6.27).

Com isso, Jesus está nos dizendo: “em vez de se preocuparem com o que importa, vocês se preocupam com o que não importa, como se isso pudesse salvar vocês da morte”. A nossa salvação não está em termos bens – sejam quais forem –, mas em sermos amados e amadas por Deus ao ponto de o Pai entregar seu Filho para morrer na cruz em nosso lugar. Os bens que possuímos e os avanços da medicina podem até prolongar um pouco a nossa vida, mas não podem impedir a morte! A esperança da vida eterna está somente em Cristo.

Assim, Ação de Graças não significa apenas ofertar, mas também aceitar o que nos foi ofertado. Deus não nos ofertou o mínimo que tinha; Deus não enviou um anjo para morrer por nós; ao contrário, quando Deus decidiu fazer uma oferta, ele ofertou o que tinha de melhor e mais valioso: o seu próprio Filho. A vida do Filho – Jesus Cristo – foi ofertada para que a partir da sua autodoação também possamos viver eternamente.

A melhor oferta já foi feita por Deus, para que tenhamos vida e vida em abundância. É nele que cremos para que cheguemos à ressurreição e à vida eterna. A vida eterna não está nas nossas preocupações tolas, mas na pessoa e obra de Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador.

Desta forma, podemos ofertar livremente em agradecimento à maravilhosa oferta que Deus, o Pai, já realizou em nosso favor.

3 NÃO SE PREOCUPAR É SINAL DE FÉ
(v. 31-34)

O que está ocupando o primeiro lugar em nossas vidas? O que é prioridade para nós? Quem está em destaque? Jesus nos faz um maravilhoso convite: “Busquem em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas lhes serão acrescentadas”. (Mateus 6.33). O problema é que geralmente o Reino de Deus está em último lugar em nossas vidas: sobra dinheiro para tantas coisas, mas falta quando o assunto é a contribuição mensal para a Igreja de Jesus. Se sobrar, é dado para a Igreja; ou, se eu preciso da Igreja, então faço um acerto.

Queridos irmãos, queridas irmãs, com Deus não se faz negócio. Ou buscamos em primeiro lugar o seu Reino e a sua Justiça, ou não temos uma fé de verdade; ou Deus é prioridade em nossa vida, ou Deus não está em nossa vida; ou Deus é Senhor também do nosso bolso, ou ele não é o nosso Senhor. A contribuição financeira com o Reino de Deus é sinal somos verdadeiramente fiéis a Deus ao ponto de não lhe negarmos nada, nem as coisas que “achamos que possuímos”.

A Bíblia fala sobre dinheiro. Esse assunto não é brincadeira. Malaquias 3.8-10 diz: “Será que alguém pode roubar a Deus? Mas vocês estão me roubando e ainda perguntam: “Em que te roubamos?” Nos dízimos e nas ofertas. Com maldição, vocês são amaldiçoados, porque estão me roubando, vocês, a nação toda. Tragam todos os dízimos à casa do Tesouro, para que haja mantimento na minha casa. Ponham-me à prova nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não lhes abrir as janelas do céu e não derramar sobre vocês bênçãos sem medida”. Esse texto deve ser lido em paralelo com Paulo que nos diz em 2 Coríntios 9.7: “Cada um contribuía segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade, porque Deus ama quem dá com alegria”. As ofertas e os dízimos devem ser feitos com alegria e não com reclamação, murmuração ou raiva. O convite é que doemos com alegria e disposição, espontaneamente.

Na IECLB, temos um sistema justo para isso. As suas ofertas não mudam o salário do pastor e também não vão para o bolso de ninguém do presbitério. Se você ofertar R$ 10,00, R$ 100,00, R$ 1.000,00 ou R$ 10.000, o salário do pastor não aumenta nem um centavo, pois a subsistência ministerial é um valor fixo. Toda contribuição nos ajuda a mantermos a missão de levarmos a Palavra de Deus adiante e de ajudarmos as pessoas que precisam da nossa ajuda. É isso que a Igreja faz. Não se trata apenas de uma manutenção de estruturas, mas de manter o foco na Palavra de Deus. Isso é sinal de fé.

Amados irmãos, amadas irmãs,

precisamos ter visão de Reino. Ação de Graças não é apenas um evento que acontece todos os anos na comunidade, mas um hábito que deve fazer parte do nosso dia a dia; ação de graças acontece quando ofertamos com alegria nos cultos e quando pagamos a nossa contribuição mensal com disposição e sem rancor; ação de graças acontece quando contribuímos não só porque precisamos, mas porque queremos; ação de graças acontece quando entendemos que não possuímos nada e que tudo é de Deus.

Portanto, confiemos em Deus. Ofertemos com alegria e disposição. Vamos nos preocupar somente com aquilo que realmente importa para que a ansiedade não tome conta das nossas vidas. Não é possível ser cristão sem envolver o bolso. Ou entregamos a Deus o nosso tempo, talentos e tesouro, ou não pertencemos ao reino de Deus, mesmo que tenhamos sido batizados e estejamos na igreja todos os domingos.

Confiemos que o nosso futuro está nas mãos de Deus. Ele cuidará de nós e cuidará também dos filhos e netos que virão depois de nós. Tenhamos fé ao ofertarmos, sabendo que Deus já nos ofertou o que tinha de melhor: seu único e amado Filho.
Busquemos o Reino de Deus e sua justiça. Lutero diz:

Aqui ele se refere à justiça que precede da fé, pressurosa e ativa por meio de boas obras. Significa tomar o Evangelho a sério e ouvir ou promovê-lo assiduamente e depois viver de acordo com meus atos, e não ser um fútil conversador ou hipócrita, que o deixa entrar por um ouvido e sair pelo outro.5

Que o Espírito de Deus use essa Palavra para falar profundamente em nossos corações. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os nossos corações e as nossas mentes em Cristo Jesus, amém.



4º DOMINGO APÓS PENTECOSTES - AÇÃO DE GRAÇAS | VERMELHO | TEMPO COMUM | ANO C

03 de Julho de 2022


P. William Felipe Zacarias


Cf. < https://exame.com/ciencia/brasil-e-o-pais-mais-ansioso-do-mundo-segundo-a-oms/ >. Acesso em: 30. jun. 2022.

2 Cf. < https://sindsprevrj.org/brasil-teu-nome-e-fome/ >. Acesso em: 30. jun. 2022.

3 LUTERO, Martinho. Prédicas Semanais sobre Mateus 5.7 – 1530-1532. in: LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. v. 9. São Leopoldo: Sinodal; Canoas: Ulbra; Porto Alegre: Concórdia, 2005. p. 190.

4 LUTERO, 2005. p. 191.

5 LUTERO, 2005. p. 201.


Autor(a): P. William Felipe Zacarias
Âmbito: IECLB / Sinodo: Rio dos Sinos / Paróquia: Sapiranga - Ferrabraz
Área: Confessionalidade / Nível: Confessionalidade - Prédicas e Meditações
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 6 / Versículo Inicial: 25 / Versículo Final: 34
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 67462
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