Jornal Evangélico Luterano

Ano 2021 | número 846

Quarta-feira, 25 de Maio de 2022

Porto Alegre / RS - 11:01

Perspectiva - P. DR. Oneide Bobsin

2020, o ano que não terminará tão cedo...

Dai, pois, a Deus o que é de César e, o que é de César, a Deus. Conscientemente, fiz uma inversão dos termos de Mateus 22.21 para caracterizar o pensamento fundamentalista e religioso que grassa em nosso mundo e faz avanços no Brasil.

Para questionar a inversão dos termos da palavra de Jesus, transcrevo a seguir alguns parágrafos do Teólogo protestante Karl Barth (1886-1968). Os textos citados encontram-se na obra Dádiva e Louvor (2006). Teólogo suíço, Barth propõe ‘Comunidade Civil’ como sinônimo de Estado. Vejamos algumas teses da sua palestra proferida em Berlim, na Alemanha, em 1946.

Sob ‘Comunidade Cristã’, entendemos o que normalmente se entende por ‘Igreja’ e, sob ‘Comunidade Civil’, aquilo que normalmente se chama ‘Estado’. A utilização do termo ‘comunidade’ para caracterizar ambas as grandezas quer indicar a a relação e a ligação positiva existente entre as duas (p. 189).

A ‘Comunidade Cristã’ (Igreja) é a entidade a congregar aquelas pessoas de um lugar, de uma região, de um país, que estão especialmente convocadas dentre as demais como ‘cristãs’ e como tais reunidas pelo reconhecimento de Jesus Cristo e no intuito de professá-lo. A causa, o sentido e a finalidade dessa ‘reunião’ (ecclesia) é a vida em comum dessas pessoas em um Espírito Santo, isto é, na obediência àquela Palavra de Deus em Jesus Cristo, que todas elas já ouviram e que todas novamente desejam e precisam ouvir (p. 289).

Se olharmos da Comunidade Cristã para a sociedade civil, percebemos a diferença que ali os cristãos não mais estão entre si como tais, mas na companhia de não-cristãos (ou de cristãos duvidosos). A Comunidade Civil simplesmente abrange todas as pessoas da respectiva área. Concomitantemente, ela não tem uma consciência comum a todos sobre a sua relação com Deus. Esta, portanto, não pode constituir um elemento da ordem de direito nela instituída e válida. Em suas questões, não se pode apelar para a Palavra de Deus ou para o Espírito de Deus. A Comunidade Civil é espiritualmente cega e ignorante. Ela não tem fé, nem amor, nem esperança. Ela não tem confissão, nem mensagem. Nela não se ora e nela ninguém é irmão ou irmã do outro (p. 290).

Não existe, portanto, nenhum Estado cristão correspondente à Igreja Cristã, nenhuma réplica da Igreja na esfera política, pois, mesmo que o Estado seja efeito de disposição divina, mesmo que ele seja a forma em que se apresenta uma daquelas constantes da providência divina e da história do mundo por ela regida no Reino de Cristo, isto não implica que Deus se revele, seja crido e reconhecido em uma comunidade estatal em si (p. 296).

Aquilo de próprio com que ela entra nessa arena tampouco será direta e simplesmente o Reino de Deus. A Igreja chama à lembrança o Reino de Deus, mas isto não significa que ela espera do Estado que ele vá se transformando no Reino de Deus. [...] No Reino de Deus, não há Legislativo, nem Executivo, nem Judiciário. A Comunidade Civil em si, a Comunidade Civil neutra, pagã, ainda ou novamente ignorante, nada sabe do Reino de Deus (p. 301).

Na área da Política, a Comunidade Cristã se encontra como Comunidade Cristã e, portanto, a se empenhar e lutar pela justiça social. Na opção entre as diversas possibilidades socialistas (socialliberalismo, cooperativismo, sindicalismo, livre-monetarismo, marxismo moderado ou radical?), ela, em todos os casos, fará aquela escolha da qual julga poder esperar o máximo de justiça social, relegando para o segundo plano todos os demais critérios.

Barth era membro da Igreja Confessante, que protestou contra o governo nazista, não por ser governo, mas por ser governo que ocupa o lugar de Cristo na fé. Vejam um trecho da Declaração Teológica de Barmen:

A Escritura nos diz que, segundo disposição divina, o Estado tem a incumbência de cuidar da justiça e da paz dentro do mundo ainda não redimido, no qual também se encontra a Igreja, segundo o critério do discernimento humano e da capacidade humana, mediante ameaça e uso da força. Com gratidão e reverência perante Deus, a Igreja reconhece a bênção dessa sua disposição. Ela chama à lembrança o Reino de Deus, o mandamento e a justiça de Deus e, concomitantemente, a responsabilidade dos governantes e governados. Ela confia na e obedece à força da Palavra, mediante a qual Deus sustenta todas as coisas.

Continuo com o meu lema de Pastor e Professor de Ciências da Religião: Deus não é religioso. Graças a Deus! 

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