Igreja e Sociedade



ID: 2797

Soberania e segurança alimentar: o lugar da mesa em nossas vidas

17/11/2010

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Ao criar o mundo, em um momento “não havia nenhuma planta do campo na terra, pois ainda nenhuma erva do campo havia brotado; porque o Senhor Deus não fizera chover sobre a terra, e também não havia Adam para lavrar o solo” (Gênesis 2.5). Para ordenar esse caos, Deus cria Adam (Adão) da adamã – que significa terra fértil – para cuidar do Jardim do Éden. Mesmo que com a sua queda Adam passe a comer o pão no suor do seu rosto, a relação para obter o pão de cada dia está mantida.

“Fomos criados de adamã, ou seja, terra de agricultura. Esta é a nossa origem”, lembrou o pastor Dr. Carlos A. Dreher, professor na Faculdades EST, ai apresentar a palestra “Fome e Alimentação na Bíblia” no painel que deu inicio ao Seminário de Soberania e Segurança Alimentar. O evento, que está sendo realizado em São Leopoldo (RS) tem como objetivos socializar informações, experiências e promover formação e reflexão sobre o direito à alimentação. Cerca de 100 pessoas, entre estudantes, professores, agricultores familiares, indígenas e participantes estão participando dos trabalhos, que seguem até amanhã, dia 18. O pastor presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), Walter Altmann, abriu o evento.

O tema da fome também está presente desde muito cedo na Bíblia. No livro de Gênesis, as histórias de Abrão e Sara, e depois Isaque e Rebeca, que saem da sua terra para escapar à fome. No Egito, há sete anos de fome, que se alastra para a Palestina e depois para o mundo todo. “Ao longo da Bíblia, muitas pessoas passam fome”, disse Dreher.

As razões são diferenciadas. Pragas, secas, doenças e guerras, os homens empobreciam e se tornavam escravos de seus vizinhos. Mulheres e crianças estavam na dependência dos homens. Desamparadas destes, viúvas e órfãos passavam fome e necessidade. O mesmo acontecia com os forasteiros, desgarrados do seu grupo de origem.

“Para evitar – ou pelo menos diminuir – esse desequilíbrio, a solidariedade foi a base para garantir a liberdade e o pão”, afirmou Dreher. A bela história de Noemi e Rute (no livro de Rute) mostra como se propôs deixar as sobras da colheita para os pobres.

O segundo painelista, pastor Dr. Rodolfo Gaede Neto, professor da Faculdades EST, falou sobre Diaconia como comunhão de mesa. Para o professor Gaede, Jesus sempre pregou a idéia de uma mesa aberta e acessível para todas e todas. Ele lembrou Mateus 8.11: Muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugar à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus. “Jesus manifestou sua convicção de que no reino dos céus todos os povos da terra participarão. Ou seja, Jesus anunciou o reino de Deus que se caracteriza pela sua abertura e pela sua abrangência”, disse Gaede Neto.

Outros objetivos da comunhão à mesa apresentados por Gaede Neto incluíram: a mesa que tem em vista a desconstrução das barreiras étnicas e culturais, para que os benefícios do reino de Deus não sejam particularizados (Marcos 7.24-30); a mesa que sacia a fome dos pobres Lázaros e assim encaminha a superação do abismo entre as classes sociais (Lucas 16.19-31); a mesa capaz de edificar sinais de reconciliação entre os segmentos divididos do povo de Deus por causa do fundamentalismo e do legalismo (Lucas 15.11-32); mesa em que a política possa ser concebida como preparação de banquetes da vida, onde todos/as possam comer e se fartar (Marcos 6.30-44); e finalmente, a mesa que tem em vista a criação de novas relações no nível econômico, construídas sobre o paradigma da partilha entre os desiguais (Lucas 14.7-14).

“A mesa é um lugar apropriado para conversar, dialogar, estar frente a frente, olhar nos olhos, conhecer, fazer amizades, compreender, brincar, avaliar, planejar, desfazer mal entendidos, aparar arestas no relacionamento, respeitar diferenças, aceitar, acolher, praticar hospitalidade, partilhar, perdoar, reconciliar, selar a paz, comemorar, brindar, saciar a fome de pão e a sede de comunhão”, lembrou Gaede Neto.

A terceira palestra da tarde - Teologia e o direito à alimentação, foi apresentada pelo pastor Dr. Valério Schaper, professor da Faculdades EST. Ao lembrar que uma família de recursos medianos na Alemanha gasta US$ 500,00 por semana na compra de alimentos, enquanto que uma família de refugiados no Chade gasta US$ 1,23 dólares, Schaper falou sobre a Teologia do Suficiente, a partir de I Coríntios 10.16-17(18-21).

O significado e o valor simbólico-cultural da alimentação (comunhão de mesa, formação de identidade, pertencimento social, lazer, etc.) são hoje fortemente determinados pela indústria e pelos meios de comunicação. A representação simbólica e religiosa a respeito do que é melhor para a saúde humana tem sido substituída pelas propagandas dos alimentos industrializados, que estimulam o consumo voltado exclusivamente pelo prazer de se comer.

Comemos cada vez menos em família, cada vez mais em lanchonetes, cada vez mais para demonstrar “status” e comemos mais do que precisamos. O alimentar-se tem cada vez menos o sentido da solidariedade, da alegria, da comunhão e da integração. Alimentar-se produz uma sociedade doente em vários sentidos (obesidades mórbidas, anorexias ou bulimias e um exército de famintos).

Texto: Susanne Buchweitz/Comunicação FLD
Fotos: Jaime Ruthmann

O seminário
O Seminário de Soberania e Segurança Alimentar é uma promoção do Centro de Apoio ao Pequeno Agricultor (CAPA), Conselho de Missão entre Indígenas (COMIN), Fundação Luterana de Diaconia (FLD), Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) e Faculdades EST e conta com o apoio do Fundo de Solidariedade da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2010.



 

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