''Não havia entre eles nenhum necessitado...'' Atos 4.32-35

Culto Ecumênico alusivo ao aniversário de Maripá At 4.32-35 Autoria P. Me. Alexander R. Busch

14/04/2021

Aniversário de Maripá (culto online)
At 4.32-35 e Jo 20.19-23

 

Estimada comunidade,
“Não havia entre eles nenhum necessitado...”, é assim que Lucas, autor do livro Atos dos Apóstolos, descreve a comunidade cristã na cidade de Jerusalém. Estas palavras bem poderiam ser aplicadas ao nosso município Maripá, que nesta semana comemora 31 anos de emancipação política. Longe ficaram os tempos de necessidade e privações da geração pioneira, que, em 1953, estabeleceram a Vila Maripá. Longe ficaram as matas densas e nativas e a falta de estrutura, que muito dificultava o dia a dia das famílias pioneiras. Fruto do trabalho e fruto da fé destas famílias, hoje Maripá conta com um dos melhores índices de qualidade de vida. Dados estatísticos recentes assim o comprovam, assim como a experiência de quem vive em Maripá: boas escolas que se destacam na região, não faltam ofertas de emprego e trabalho, o acesso à saúde e serviços públicos é eficiente, entre outros exemplos. E mesmo neste tempo de pandemia da covid-19 – ainda que reconhecendo que em Maripá algumas empresas e comércios não conseguiram sobreviver à crise econômica, ainda que reconhecendo algumas perdas de vidas decorrentes da covid – Maripá está muito bem, comparada a outros municípios no Brasil. A agricultura, carro-chefe da nossa economia, aliada a uma gestão política eficiente de nossos recursos e potencial, contribuem para a nossa excelente qualidade de vida.

E “não havia entre eles nenhum necessitado...”, escreve Lucas, autor de Atos dos Apóstolos, mas também autor do Evangelho que leva seu nome. E quando lemos estes dois livros que fazem parte do NT, percebemos que Lucas tem muito a dizer sobre o ensino de Jesus quanto aos bens materiais e às riquezas. É Lucas quem registra a compaixão do Bom Samaritano que, do próprio bolso retira duas moedas de prata para pagar as despesas na pensão de uma pessoa ferida que encontrou no caminho (Lc 10.35). É Lucas quem narra a imensa gratidão de um homem cuja grande dívida financeira havia sido perdoada (Lc 7.42). Lucas destaca o ensino de Jesus sobre como o dinheiro pode ser oportunidade para expressar compaixão e perdão.

Mas Lucas também adverte quanto ao perigo que as riquezas representam. O perigo não está no dinheiro em si, mas sim no apego do coração humano às riquezas e bens materiais. É Lucas quem registra a indiferença do homem rico diante do pobre Lázaro, que procurava matar sua fome com as migalhas que caíam da mesa do homem rico (Lc 16.21). É Lucas quem narra a loucura do rico agricultor que, depois de uma grande colheita, mandou derrubar os silos para construir silos maiores, dizendo a si mesmo, “Homem feliz! . . . agora descanse, coma, beba e alegre-se”. E Deus então disse, “Seu tolo! Esta noite você vai morrer e quem ficará com tudo que você guardou?” Lc 12.19-20). Palavras de Jesus! Que seu ensino sirva de orientação e alerta para nós – nós que, em Maripá, desfrutamos de muitas bênçãos, prosperidade financeira e excelente qualidade de vida.

E “não havia entre eles nenhum necessitado...”, é o que Lucas nos fala a respeito da comunidade cristã em Jerusalém – o texto de Atos dos Apóstolos que ouvimos hoje. Releio uma parte do texto para que esta palavra fique bem gravada em nossas mentes e corações: “Todos os que creram pensavam e sentiam do mesmo modo. Ninguém dizia que as coisas que possuía eram somente suas, mas todos repartiam uns com os outros tudo o que tinham. Com grande poder os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e Deus derramava muitas bênçãos sobre todos. Não havia entre eles nenhum necessitado . . . “. Lucas narra aqui a solidariedade, a partilha, a comunhão presente entre as pessoas que faziam parte da comunidade cristã. Uma comunhão e partilha tão radical que se destacava na sociedade – a comunidade cristã existia dentro de um contexto maior, a cidade de Jerusalém de cultura judaica, porém debaixo do domínio do Império romano. Assim como nos dias de hoje, naquele tempo e lugar as riquezas e os bens materiais muitas vezes eram muros de separação e conflito. O Império Romano cobrava pesados impostos para alimentar seu aparato militar, os exércitos que mantinham na linha os povos sob o seu domínio. Mais importante ainda, a arrecadação de impostos alimentava a vida extravagante e luxuosa da elite imperial na cidade de Roma. Na sociedade daquele tempo e lugar, o contraste entre quem tinha e quem não tinha era bastante visível. Por isso, o testemunho da comunidade cristã – a solidariedade, a partilha, a vida em comum – se destacava. E, conforme o próprio livro Atos dos Apóstolos nos conta, muitas pessoas de fora se aproximavam, cativadas por este testemunho e eram agregadas ao grupo. A comunidade cristã crescia, e talvez mais importante do que seu crescimento numérico, era seu testemunho e vivência a partir de Cristo Jesus. 

“Não havia entre eles nenhum necessitado...”. A motivação para a solidariedade e partilha nasceu da boa notícia da ressurreição de Jesus. Este mesmo Jesus que ensinava a compaixão e o perdão, este mesmo Jesus que exemplificou na prática a solidariedade e a partilha, este mesmo Jesus que foi condenado pelas autoridades e assassinado na cruz, este mesmo Jesus agora foi levantado por Deus e com ele uma nova comunidade foi levantada. Jesus, enviado por Deus para compartilhar a paz, é o mesmo quem envia sua comunidade, no poder do Espírito Santo, para viver uma nova vida de comunhão e esperança. E “não havia entre eles nenhum necessitado...”. No meu entender, o milagre maior neste texto de At 4 não são as dádivas generosas, até mesmo extravagantes dos bens materiais e do dinheiro que as pessoas repartiam entre si. O maior milagre é a solidariedade e partilha, a comunhão e cuidado que as pessoas têm umas com as outras, a partir de Cristo Jesus. O dinheiro, que muitas vezes, separa, agora, na comunidade de Jesus, serve para agregar e reunir as pessoas, serve para construir pontes de comunhão e compaixão.

É verdade – e isso precisamos destacar - que a prática de vender os bens e entregar tudo aos apóstolos para que administrassem os recursos e ninguém passasse necessidade acontecia porque aquela comunidade cristã acreditava que o fim do mundo estava próximo. Jesus logo iria retornar para inaugurar definitivamente o reino de Deus e todos os outros reinos, incluindo o Império romano, teriam o seu fim. Não foi isso que aconteceu. O fim do mundo não chegou! E Lucas sabe disso. Lucas escreve o livro Atos dos Apóstolos justamente para enfatizar que a história das comunidades cristãs, a história da igreja de Cristo Jesus, continua sendo escrita.

E “não havia entre eles nenhum necessitado...” é o chamado de Jesus para continuarmos escrevendo esta história. Reconhecendo que não sabemos quando o fim do mundo há de chegar e Jesus retornar. Reconhecendo que não nos é possível apenas compartilhar sem produzir. Oramos com Jesus, “o pão nosso de cada dia nos dá hoje . . .”, reconhecendo que precisamos da benção de Deus para trabalhar com saúde, produzir alimentos e colher o fruto do nosso labor. Reconhecendo - e aqui penso está o chamado de Jesus para nosso tempo e lugar – que Jesus chama suas comunidades, sua igreja para expressar solidariedade e compaixão, especialmente nesta pandemia quando no Brasil o fantasma da fome voltou a assombrar. Conforme dados estatísticos do site olheparaafome.com.br, no Brasil atualmente temos cerca de 19 milhões de pessoas, correspondente à população da grande SP, que estão literalmente passando fome.

E “não havia entre eles nenhum necessitado...”. Nós, em Maripá, não vamos resolver o problema da fome no Brasil, tampouco resolver todas as outras carências presentes em nosso país. Entretanto, o que estiver ao nosso alcance - seja através de iniciativas em nossas comunidades e município, seja através de projetos maiores organizados pelas igrejas ou outras instituições – o que estiver ao nosso alcance, que Deus use os bens matérias e nossas riquezas nesta terra abençoada por Deus para construir pontes de comunhão e solidariedade, para compartilhar a boa nova da ressureição de Jesus. Amém.
 


Autor(a): P. Me. Alexander R. Busch
Âmbito: IECLB / Sinodo: Rio Paraná / Paróquia: Maripá (PR)
Área: Confessionalidade / Nível: Confessionalidade - Prédicas e Meditações
Testamento: Novo / Livro: Atos / Capitulo: 4 / Versículo Inicial: 32 / Versículo Final: 35
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 62063
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Mal tenho começado a crer. Em coisas de fé, vou ter que ser aprendiz até morrer.
Martim Lutero
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