Dia Mundial de Oração 2024 | Palestina

Quaresma - Ciclo da Páscoa | ANO B

28/02/2024

 

 

Amados irmãos, amadas irmãs,

desde o dia 07 de Outubro de 2023, temos acompanhado nos noticiários uma verdadeira e dramática catástrofe humanitária no Oriente Médio. Naquele dia, Israel sofreu um ataque terrorista por parte do Hamas, deixando muitas vítimas. É importante mencionar que também estamos do lado das pessoas que sofrem em Israel. Contudo, desde Outubro, Israel tem procurado combater os terroristas do Hamas – que se escondem atrás de reféns que são civis inocentes. Mesmo sendo vítima do ataque do Hamas, Israel tem usado de uma força desproporcional em seu contra-ataque, somando quase 30 mil vidas perdidas em Gaza e dificultando a entrada de ajuda humanitária na região. Enfim, a Terra Santa onde Jesus nasceu, viveu e testemunhou da Palavra de Deus é novamente palco de uma terrível e sangrenta guerra.

De outro lado, chama a atenção nas redes sociais como muitos evangélicos no Brasil associam a guerra e o atual Estado de Israel ao nome de Deus. Por causa de uma doutrina chamada dispensacionalismo, muitos cristãos brasileiros acreditam que Deus tem uma missão especial para o Estado de Israel a partir da sua fundação em 1948. Assim, colocam-se ao lado de Israel com um total desconhecimento tanto teológico quanto sociológico da situação. Vejamos alguns exemplos (imagens na projeção).

Estes são os posts mais leves. Há coisas mais pesadas na internet. Mas então olhe agora essas imagens: o jornalista Motaz Azaiza diz que lhe deram esses dois bebês que foram feridos em um ataque israelense. Então, ele abandonou a câmera e sua missão e os levou a um hospital. As imagens são fortes.[1]

Estas crianças palestinas não são nossos inimigos; são nossos irmãos! Mas tem gente usando a Bíblia de uma maneira completamente equivocada para justificar e legitimar a morte daqueles que são nossos irmãos como se fossem nossos inimigos!

E quantos evangélicos no Brasil dão apoio a essa violência em nome de deus, um deus que justifica a barbárie contra crianças e adultos inocentes! Olha, desse deus que justifica esse tipo de violência eu sou completamente ateu! Eu, Pastor William Felipe Zacarias, não acredito nesse deus dos evangélicos do Brasil. E se você acredita nesse Deus que justifica e legitima o sofrimento de 10 mil crianças inocentes, tenha certeza de que você não crê no Deus-homem Jesus Cristo pregado na cruz. A partir do Novo Testamento, não há o que legitime a defesa das atrocidades que Israel está cometendo contra os Palestinos inocentes. Israel é um país como outros. Não há nada de especial. E precisamos lembrar que Jesus andou por todo aquele território. Inclusive a cidade de Belém – onde Jesus nasceu – fica na Palestina.

Eu creio no Deus-homem Jesus Cristo que foi pregado na cruz. O Deus crucificado está com os que sofrem e são crucificados hoje. Israel foi vítima de um ataque terrorista? Foi. Mas nada legitima a violência e o terror que Israel está perpetrando em Gaza desde Outubro do ano passado. Deus está do lado dos que sofrem tanto em Israel quanto em Gaza. Ali onde há sofrimento, ali Deus está. Mas, preferimos muitas vezes ouvir discursos fundamentalistas que nada tem a ver com a realidade do povo de Deus. Por isso, preciso mencionar que o Israel bíblico hoje não é o Estado de Israel, mas a Igreja de Jesus. Onde pessoas creem e confessam a Jesus como Senhor, ali está o povo de Deus.

No ano passado, o Bispo Luterano emérito Dr. Munib A. Younan, que já foi presidente da Federação Luterana Mundial, escreveu um profundo texto sobre a situação na Palestina. Seu texto começa com o lema bíblico de Miquéias 6.8: “O que o Senhor pede’ de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus.” Em um trecho do seu texto, Munib afirma:

Cristãos na Terra Santa estão desapontados ao ver alguns cristãos em outros lugares usando interpretações bíblicas que justificam o sofrimento palestino. Os cristãos acreditam que o cumprimento da profecia se deu somente em Jesus Cristo. As pessoas, portanto, não devem usar os textos do Antigo Testamento para identificar a situação atual com eventos bíblicos. O conflito palestino-israelense não é religioso, bíblico ou escatológico. É um conflito moderno sobre a colonização de terras. Deve ser visto como conflito político que precisa de uma solução política alcançada através da aplicação justa das resoluções das Nações Unidas e do direito internacional.[2]

Em seu “Grito de Jerusalém”, Munib pede também:

Peço que orem por todas as vítimas do ataque e da guerra resultante, por todos os enlutados, por todos os feridos, por todos os traumatizados, por todos os prisioneiros de guerra, por todos os deslocados, por todos aqueles cujas casas foram demolidas, por todas as crianças que vivem com medo.

Por favor, orem para que Deus toque as mentes dos políticos para trabalharem pela justiça na Palestina e em Israel, para que possamos realizar a visão de São João, que escreveu que “lhes enxugará dos olhos toda lágrima. E já não existirá mais morte, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram.” (Apocalipse 21.4).[3]

 

E é isso que estamos fazendo aqui hoje. Esse alerta é mais que necessário. Antes de compartilhar qualquer coisa nas redes sociais sobre a guerra entre Israel e Palestina, lembre dos que sofrem e se pergunte se o Deus da cruz é compatível com aquilo que determinado post está afirmando. Não há nada que justifique ficarmos “ateando lenha na fogueira” através de guerras digitais. A situação é grave!

Onde está Deus em meio a essa situação de guerra e terror? Deus está nos que sofrem. Ali onde há sofrimento, ali Deus está. Deus está onde não o queremos enxergar. Deus está nas 10 mil crianças mortas na guerra – e morreu com cada uma delas; Deus está em cada uma das vítimas inocentes tanto na Palestina quanto em Israel; Deus está no sofrimento de cada pessoa que sofre com o preconceito por ter nascido no território palestino; Deus sente as dores da guerra. O Evangelho clama pela paz!

O que podemos fazer à distância sobre essa guerra? Orar pela paz, interceder pela paz, mas também cultivar a paz em nossos relacionamentos e em nossas redes virtuais. Nada de ficar alimentando discursos fundamentalistas e dispensacionalistas. Nada de ficar encontrando motivos que justifiquem o sofrimento humano.

Termino da mesma forma como comecei: aquelas crianças não são nossos inimigos, são nossos irmãos; aqueles adultos inocentes mortos pelo ataque do Hamas e pelo ataque desproporcional de Israel não são nossos inimigos, são nossos irmãos. Assim, Deus nos abençoe com muito amor ao próximo – especialmente àqueles que sofrem. Amém.

 


[2] YOUNAN, Munib A. A Cry from Jerusalém. disponível em: < https://lutheranchurch.co.uk/bishop-munib- message/?fbclid=IwAR2gHwqZ7aNyd8OWrkfOYZyCOPSGnFqq8AN99fQLgjsGSnevKaV LAvB_YTM >. Tradução própria disponível em: < https://umpastorluterano.com/um-grito-de-jerusal%C3%A9m-3312d0d36f09 >. Acesso: 28. fev. 2024.

[3] YOUNAN, Munib A. A Cry from Jerusalém. disponível em: < https://lutheranchurch.co.uk/bishop-munib- message/?fbclid=IwAR2gHwqZ7aNyd8OWrkfOYZyCOPSGnFqq8AN99fQLgjsGSnevKaV LAvB_YTM >. Tradução própria disponível em: < https://umpastorluterano.com/um-grito-de-jerusal%C3%A9m-3312d0d36f09 >. Acesso: 28. fev. 2024.


Autor(a): P. William Felipe Zacarias
Âmbito: IECLB / Sinodo: Rio dos Sinos / Paróquia: Sapiranga - Ferrabraz
Testamento: Novo / Livro: Efésios / Capitulo: 4 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 3
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 72379
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Não há pecado maior do que não crermos no perdão dos pecados. Este é o pecado contra o Espírito Santo.
Martim Lutero
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