Culto e Liturgia

Batismo - aspectos bíblicos, históricos e confessionais

O principal marco de referência para a prática batismal da igreja cristã é o Novo Testamento.

No Novo Testamento são vários os significados vinculados ao batismo. Destacam-se os seguintes: a) O perdão dos pecados (At 2.38): Segundo Atos dos Apóstolos, em Pentecostes Pedro convida ao arrependimento e ao batismo para remissão dos pecados. b) A união com Cristo (Cl 2.12,20; Rm 6.3-5): O batismo dá a cada pessoa batizada a participação na vida e na morte de Jesus Cristo, assim como a possibilidade da ressurreição por meio dele (Cl 3.1). É esta união com Jesus Cristo que fundamenta o sacerdócio universal de todas as pessoas crentes. c) A recepção do Espírito Santo (Mt 3.16; At 2.38; 19.1-7): Para o cristianismo dos primeiros tempos, existe uma unidade entre a lavagem batismal e a doação do Espírito Santo. d) A incorporação à Igreja, que é o corpo de Cristo (1Co 12.13): O batismo une a Cristo e, como tal, leva a pessoa batizada a pertencer-lhe (1Co 3.22s). Através do batismo, as pessoas cristãs são levadas à união entre si e com a Igreja de todos os tempos. Em Cristo são anuladas as diferenças entre as pessoas (Gl 3.27-29). e) O renascimento (Tt 3.5; Jo 3.5): O batismo regenera, renova, marca o início de uma nova vida. Nessas imagens articulasse uma noção idêntica à idéia paulina de que a pessoa deixou o velho Adão para trás (1Co 15.22), tornando-se nova criatura (2Co 5.17). A concepção de batismo no Novo Testamento é como um buquê colorido. Seja de que ângulo olharmos sempre veremos uma ou outra flor mais destacada do que as demais. No entanto, nem uma nem duas sozinhas representam o todo. O importante é jamais perdermos a visão e o equilíbrio do conjunto.

Outro importante marco de referência para a prática batismal de uma igreja luterana em nossos dias é a igreja antiga.

Para uma melhor compreensão de sua prática batismal, é útil dividir o tempo da igreja antiga em duas épocas, a pré e a pós-constantiniana.

Batismo na época pré-constantiniana

- Esta secção baseia-se especialmente na Tradição apostólica de Hipólito de Roma (ano de 215), a qual reflete uma prática usual na comunidade cristã de Roma, a partir de fins do século 2.

Constantino foi o primeiro imperador romano que se converteu ao cristianismo. No período que precedeu esse imperador (até aproximadamente o ano de 306), pessoas e comunidades cristãs eram, de tempos em tempos, censuradas, discriminadas e até perseguidas pelo império romano. Ser uma pessoa cristã significava orientar-se e viver a partir de valores e de uma ética destoantes daqueles da sociedade circundante. E isso não estava isento de riscos. Preocupada com esse fato, a Igreja foi desenvolvendo um tempo de forte preparação para as pessoas que desejavam ser batizadas, buscando integrar-se à comunidade cristã. Na época de Justino de Roma (primeira metade do século 2), por exemplo, essa preparação consistia em uma paulatina introdução no modo de vida das cristãs e dos cristãos, acompanhada de instruções, jejuns e orações.

Na Tradição apostólica, de Hipólito de Roma, encontramos uma descrição detalhada da preparação batismal e do batismo, como vinham sendo praticados em Roma desde o ano de 170. A preparação batismal, chamada catecumenato, dividia-se em duas etapas: o catecumenato propriamente dito e aquilo que se denomina o tempo de preparação próximo. Ambas as etapas consistiam basicamente no seguinte:

Para que uma pessoa ingressasse no catecumenato, devia ser postulada e apresentada diante dos catequistas por alguém da comunidade que pudesse responder por ela, um padrinho. Em seguida, essa pessoa era submetida a uma série de perguntas e exames de consciência. Dessa maneira, o catequista procurava conhecer diferentes aspectos que tinham a ver com a vida familiar da pessoa, com a forma de ela ganhar seu sustento e com as motivações que a levavam a postular o batismo. No caso de exercer algum ofício que a envolvesse em atividades imorais, bélicas ou idolátricas, devia abandoná-lo e mudar seu estilo de vida. Ou seja, a pessoa que quisesse ser admitida na igreja precisava adotar uma forma e um estilo de vida considera17 dos cristãos. Uma vez aprovada, essa pessoa postulante entrava no catecumenato e passava a ser um catecúmeno. Essa etapa podia ter até três anos de duração. Durante esse tempo, a pessoa que estava no catecumenato era acompanhada por seu padrinho ou sua madrinha e participava de diferentes atividades da comunidade. Entre elas, do cuidado de pessoas pobres e necessitadas, das celebrações regulares da comunidade (mas não da eucaristia), de reuniões de instrução, as quais se realizavam dentro de um marco litúrgico, e de orações. O conteúdo e a meta das instruções tinham a ver com a aprendizagem e a vivência da fé professada pela Igreja. Especial importância era atribuída aos conteúdos éticos.

Quando a pessoa considerava estar pronta para ser batizada, apresentava-se novamente, junto com seu padrinho ou sua madrinha, poucas semanas antes do batismo (este se realizava normalmente na Páscoa), diante do catequista ou do bispo. Este procurava saber se o catecúmeno havia vivido com dignidade, se havia honrado as viúvas, visitado os enfermos e praticado boas obras.( HIPÓLITO.Tradição apostólica. In: NOVAK, Maria da Glória (Trad.). Tradição apostólica de Hipólito de Roma: liturgia e catequese em Roma no século III. Petrópolis: Vozes, 1971. p. 50) Ou seja, o que se buscava conhecer era a vida da pessoa e não tanto seus conhecimentos teóricos e doutrinais.

Em seguida, a pessoa entrava no tempo de preparação próximo. Durante essa etapa, realizava-se um aprontamento intensivo para a celebração batismal. Este consistia de exorcismos diários, de instruções sobre o Evangelho, de imposições de mãos e de orações. Próximo ao dia do batismo, o próprio bispo realizava o exorcismo e marcava, normalmente com óleo, a fronte, os ouvidos e o nariz, com o sinal da cruz. Na sexta-feira e no sábado santos, as pessoas candidatas ao batismo jejuavam acompanhadas por gente da comunidade. Do sábado para o domingo, permaneciam em vigília, ouvindo leituras e instruções. Finalmente, com o primeiro cantar do galo, dirigiam-se ao lugar onde se localizava a piscina batismal.

A liturgia do batismo propriamente dita desenrolava-se em três etapas: a) a lavagem batismal, b) a imposição das mãos e a unção da fronte, c) a celebração da eucaristia.

A lavagem batismal era acompanhada por uma série de ações: a oração sobre a água, o desvestir-se, a renúncia, a unção com óleo, a entrada na água, a lavagem com profissão de fé, a saída da água e a unção com óleo de ação de graças. Em seguida, as pessoas batizandas se vestiam e dirigiam-se ao lugar onde se encontrava reunida a comunidade. Lá, eram recebidas pelo bispo, que lhes impunha as mãos, untava-lhes a fronte com óleo de ação de graças e lhes dava o ósculo da paz. Oravam, então, com toda a comunidade reunida e partilhavam mutuamente o beijo da paz. Por fim, as pessoas recém-batizadas participavam pela primeira vez da eucaristia. Além do pão e do vinho, recebiam leite e mel.

Observa-se, pois, no processo inteiro do catecumenato, nessa época, que predominava a prática das virtudes cristãs, como forma de preparação para a vida cristã e como fonte de conhecimento. Não importava tanto o conhecimento abstrato e doutrinal, mas antes a vida de participação cristã na comunidade e no mundo. E isso incluía o cuidado e a ajuda às pessoas pobres e necessitadas.

Batismo na época pós-constantiniana

Para este período, baseamo-nos especialmente em Ambrósio de Milão (falecido em 397), Cirilo de Jerusalém (falecido em 386), Crisóstomo de Antioquia (349-407) e no relato sobre a peregrinação de Etéria (fins do século 4 a inícios do século 5) (ETÉRIA. Peregrinação de Etéria: liturgia e catequese em Jerusalém no Século IV. Petrópolis: Vozes, 2004). O governo do imperador Constantino estendeu-se de 306 a 337.

No decorrer da chamada era constantiniana, o cristianismo passou a ser não apenas uma religião oficialmente tolerada, mas tornou-se mesmo algo como a religião da moda. Isso trouxe importantes consequências para a Igreja. Entre outras, ocorreram mudanças na prática batismal, em razão de ter aumentado significativamente o número de pessoas que desejavam tornar-se cristãs. Em muitos casos, o desejo de vir a ser cristão ou cristã devia-se mais a razões sociais (p. ex.,casamento) e políticas (p. ex., cair nas graças do imperador) do que a motivos de fé. Diante dessa situação, a igreja acentuou as exigências para as pessoas que desejavam ser batizadas, assim como as advertências para a conversão e a penitência. Em razão disso, muitas pessoas postergavam seu batismo até o leito de morte.

Essa situação fez com que o catecumenato deixasse de ser uma etapa de preparação como era durante o período pré-constantiniano. Todo o esforço pedagógico passou a concentrar-se no tempo de preparação próximo, na celebração do batismo propriamente dita e na semana pós-pascal. O ato decisivo para a prática batismal já não era o da admissão ao catecumenato, mas o de registrar-se para o batismo. Para tanto, a pessoa devia apresentar-se, uns 50 dias antes da Páscoa, acompanhada de um padrinho ou de uma madrinha, diante do bispo ou do catequista. Este interrogava-a sobre os motivos que a haviam levado a solicitar o batismo, e sobre diferentes aspectos de sua vida. No começo da época da Paixão, iniciava-se o tempo de preparação próximo. Durante o mesmo, os candidatos e as candidatas participavam de uma série de exercícios (jejuns, orações, penitência) e de instruções catequéticas, e eram submetidos regularmente a exorcismos.

A celebração do batismo ocorria na noite do sábado para o domingo da Páscoa. Assim como no período anterior, ela consistia de: a) a lavagem batismal, b) a imposição das mãos e a unção da fronte, c) a celebração da eucaristia. O desenrolar da celebração era basicamente o mesmo como no período pré-constantiniano, podendo ocorrer alterações conforme a época e o lugar. Observa-se um desenvolvimento intenso e significativo de gestos e ritos. Ênfase era dada a determinadas ações e posturas corporais. Nos exorcismos, os candidatos se ajoelhavam, todos vestidos com o mesmo tipo de tecido; na renúncia e adesão, voltando-se para o ocidente, os candidatos renunciavam às suas velhas amarras, e, olhando para o oriente, aderiam a Cristo.

O que chama a atenção, nesse período, é que determinadas informações relacionadas à celebração do batismo (lavagem, imposição das mãos, unção pós-lavagem e eucaristia) eram dadas apenas depois do evento litúrgico, durante a semana da Páscoa. A entrega dessas informações acontecia nas catequeses pós-batismais ou mistagógicas, das quais toda a comunidade participava. Através dessas catequeses, o bispo explicava o significado dos diferentes gestos, ritos e ações realizados antes, por ocasião da celebração batismal. As razões dessa prática eram, entre outras, pedagógicas. Fundamentavam-se na convicção de que determinadas aprendizagens se realizam melhor através da vivência do que de explicações teóricas e doutrinais. Segundo Ambrósio de Milão, para aquelas ações em que as pessoas batizandas eram meras receptoras, ou seja, para o próprio batismo e para a eucaristia, não se recomendava uma catequese prévia, pois esta poderia até mesmo produzir uma compreensão equivocada de tais ações, caso as pessoas viessem a julgar-se conhecedoras dos sacramentos, antes mesmo de tê-los experimentado. (Os sacramentos 1,1 e Os mistérios 2) Cirilo de Jerusalém, por sua vez, dirigindo-se às pessoas recém-batizadas na segunda-feira após o batismo, afirma: “Mas como sei bem que a vista é mais fiel que o ouvido, esperei a ocasião presente, para encontrar-vos, depois desta grande noite, mais preparados para compreender o que se vos fala (...)”(Catequese mistagógica 1,1).

Elementos litúrgicos da práxis batismal na igreja antiga

Exorcismos batismais A prática dos exorcismos batismais na igreja antiga deve ser interpretada a partir da cosmovisão dualista da época. De acordo com ela, existe, no cosmos, a luta constante entre o anjo da obscuridade (Satanás e seus demônios) e o príncipe da luz (Deus e seus mensageiros), e essa luta se reflete no coração das pessoas. Para serem batizadas, as pessoas precisavam libertar-se do poder do anjo da obscuridade, o que só se conseguia de maneira plena através de exorcismos.

Unções A lista que segue dá uma ideia da variedade de unções vinculadas ao batismo e de suas compreensões, na igreja dos primeiros séculos (OSTROWSKI, Carla; MANSK, Erli; KALMBACH, Pedro. Batismo e educação. TEAR: liturgia em revista, São Leopoldo, n. 12, p. 8-16, dez. 2003).—

-Unção de todo o corpo, antes da lavagem batismal. Trata-se de uma unção de exorcismo, cuja função é proteger contra o mal. (Tradição apostólica, Crisóstomo de Antioquia, Cirilo de Jerusalém, Ambrósio de Milão)

Unção de todo o corpo, após a lavagem batismal. É uma unção para o sacerdócio, equivalente à unção de pessoas especiais, como reis e sacerdotes. Esta unção ressalta a pertença a Cristo. (Tertuliano, Tradição apostólica)

Unção da fronte, após a lavagem batismal. É uma unção relacionada ao dom do Espírito Santo. (Tradição apostólica)

Unção da fronte com mirra, após a lavagem batismal. Mirra é uma mistura de óleo de oliva com diferentes substâncias aromáticas. Essa unção simboliza a doação da graça necessária para compreender os segredos de Deus e é entendida como unção real e sacerdotal. (Ambrósio de Milão)

Unção com mirra, após a lavagem batismal. Manifesta união com Cristo e doação do Espírito Santo. (Cirilo de Jerusalém)

Renúncia e adesão Antes da lavagem batismal, as pessoas a serem batizadas renunciavam a suas crenças religiosas anteriores (a Satanás e seus servidores), a costumes e práticas que eram considerados indignos. Imediatamente após a renúncia, manifestavam sua adesão a Cristo.

Em certas tradições, sobretudo orientais, o elemento da renúncia e adesão era eloqüentemente dramatizado. Ao manifestar a renúncia a Satanás, as pessoas a serem batizadas voltavam-se para o ocidente. Em alguns casos, sopravam ou cuspiam três vezes (ou executavam outros gestos de repulsa) nessa direção. Em seguida, voltavam-se para o oriente e, com as mãos e os olhos erguidos, expressavam sua adesão a Cristo, proferindo palavras de confiança e de disposição de estar a serviço do Senhor. O ocidente, região onde o sol se põe, era tido como o reino da escuridão, o domínio de Satanás. O oriente, região onde nasce o sol, era relacionado com o lugar onde Jesus nasceu, ressuscitou e ascendeu ao céu, e de onde virá em glória.

Lavagem batismal Segundo a Tradição apostólica, o batismo começava com a oração sobre a água. Em seguida, as pessoas que seriam batizadas se despiam e realizavam a renúncia. Catequistas, diáconos ou diáconas untavam-nas, então, com óleo de exorcismo. Em continuidade, as pessoas entravam na água, acompanhadas de um diácono ou de uma diácona e eram batizadas. Para tanto, quem presidia o batismo lhes impunha as mãos e dirigia-lhes uma pergunta tríplice (Tu crês em Deus Pai ..., em Jesus Cristo ..., no Espírito Santo ... ?). A cada pergunta, as pessoas respondiam “creio” e eram batizadas por imersão. Logo saíam da água, eram untadas com óleo de ação de graças, vestiam-se e entravam na igreja para juntar-se à comunidade. A lavagem batismal era realizada separadamente para mulheres e homens.

Imposição das mãos e unção da fronte A Tradição apostólica descreve o seguinte: depois da lavagem batismal, as pessoas batizadas se uniam à comunidade, onde eram recebidas pelo bispo. Este lhes impunha as mãos, pedindo a Deus que derramasse seu Espírito sobre elas. Em seguida, traçava o sinal da cruz, com óleo, sobre a fronte de cada pessoa batizada. Através dessa unção era acentuada sua relação com o Espírito Santo.

Destaques da prática batismal na igreja antiga

A vida cristã, como uma vida a partir de e em resposta à atuação salvífica de Deus em Jesus Cristo, foi, desde o começo, motivo de preocupação pedagógica. Esta, como vimos, não se referia tanto à aprendizagem de conteúdos conceituais, mas tinha a ver, antes, com a participação nas atividades da comunidade (celebrações, o cuidado e o amparo a pessoas necessitadas), com exercícios espirituais (jejum, oração) e com uma conduta de acordo com o que se considerava ser uma vida própria dos cristãos.

Os diversos temas que compõem a compreensão do batismo não permaneciam como uma realidade abstrata que precisava ser explicada em termos doutrinais. Assim, por exemplo, a inclusão no corpo de Cristo e a incorporação à vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo eram experimentadas através da lavagem batismal, da unção pós-lavagem, do ósculo ou abraço da paz, dado pelo bispo e pela comunidade, e da celebração da eucaristia. O perdão dos pecados e o renascimento eram vivenciados pela lavagem batismal. A doação do Espírito Santo era recebida e percebida sensorialmente através da imposição das mãos ou da unção realizada pelo bispo depois da lavagem. Isto quer dizer: a compreensão do significado do batismo (em sentido amplo), e com ele da eucaristia, se dava, em primeiro lugar, através da vivência e não de explicações doutrinais.

Durante todo o processo, que ia desde a manifestação do desejo de ser batizada até o batismo em si, a pessoa contava com o apoio, o acompanhamento e a orientação de um padrinho ou de uma madrinha. Além disso, em diferentes ocasiões (catequeses, jejuns) a comunidade acompanhava os futuros e as futuras fiéis. Dessa maneira, o tempo de preparação próximo, a própria celebração e as catequeses pós-batismais eram ocasiões em que as pessoas já batizadas continuavam a aprimorar sua formação cristã e rememoravam seu próprio batismo.

Ainda outro marco de referência importante para a prática batismal de uma igreja luterana em nossos dias é a prática batismal do próprio Lutero. A teologia batismal de Lutero se articula sobretudo nos seguintes escritos: Um sermão sobre o santo, venerabilíssimo sacramento do batismo, o Catecismo menor e o Catecismo maior. Ela pode ser resumida nos termos que seguem.

O batismo é um mandamento de Deus, instituído por Jesus (Mt 28.19), no qual um sinal externo, a água, é conjugado com uma promessa divina, configurando-se em um dos dois verdadeiros sacramentos. “Ser batizado em nome de Deus é ser batizado não por homens, mas pelo próprio Deus. Por isso, ainda que levado a efeito pelas mãos do homem, não obstante é verdadeiramente obra de Deus mesmo. (...) o próprio Deus aqui empenha a sua honra e nela põe sua força e poder.”(Catecismo Maior) O significado do batismo é “um morrer bem aventurado do pecado e uma ressurreição na graça de Deus, de modo que o velho ser humano, concebido e nascido em pecado, é afogado, e um novo ser humano, nascido na graça, surge e se levanta.” (Catecismo Menor)

Conforme Mc 16.16 (“Quem crer e for batizado será salvo.”), “somente a fé torna a pessoa digna de receber com proveito a salutar e divina água. Pois, já que isso é oferecido e prometido aqui nas palavras na água e com a água, não pode ser recebido de outro modo senão o de crê-lo de coração. De nada aproveita sem a fé, ainda que em si mesmo é tesouro divino e inestimável.” (Catecismo Maior) No entanto, “para nós, a coisa mais importante não é se aquele que é batizado crê ou não. Porque isso não invalida o batismo. (...) Pois minha fé não faz o batismo, porém recebe o batismo.” (Catecismo Maior)

O batismo compromete as pessoas numa luta diária e constante contra o pecado, pois “vida cristã outra coisa não é que diário batismo, começado uma vez e sempre continuado”. (Catecismo Maior) Sim, o batismo “significa que o velho homem em nós, por contrição e arrependimento diários, deve ser afogado e morrer com todos os pecados e maus de- sejos, e, por sua vez, sair e ressurgir diariamente novo homem, que viva em justiça e pureza diante de Deus eternamente.” (Catecismo Maior)

Essa luta diária e constante contra o pecado se dá através de toda a vida, numa orientação escatológica, até a morte. “O significado do Batismo – o morrer ou afogar-se do pecado – não se realiza inteiramente nesta vida, até que o ser humano morra também corporalmente e se transforme completamente em pó. O Sacramento ou sinal do Batismo se realiza depressa, como vemos com nossos próprios olhos, mas o significado, o Batismo espiritual, o afogamento do pecado, dura enquanto vivemos e só é consumado na hora da morte. Então a pessoa é verdadeiramente imersa na água batismal e se realiza o significado do Batismo. Por isso, esta vida nada mais é que um incessante batizar espiritual até a morte.” (Catecismo Menor) Interpretando esse enfoque do Batismo em seu sentido mais amplo,vemos a vida cristã como dom de Deus sempre renovado, tendo como paradigma a morte e ressurreição batismal. Enquanto vivermos dentre os tempos e nossas vidas forem uma luta entre o velho e o novo Adão, elas terão uma configuração batismal renovada diariamente pelo arrependimento e perdão.Em termos mais práticos isso significa que, em sua luta diária contra o mal, os cristãos sempre podem recorrer a seu Batismo. O próprio Lutero praticou isso, mandando seus demônios irem ao inferno, porque ele era propriedade de Deus – pois tinha sido batizado. Assim, a vitória contra o mal é possível por causa da obra de Deus em nós; isso não depende de nossa fraca vontade. Somos batizados; somos perdoados – por Deus! No Catecismo Menor “Confissão e Absolvição” não vêm depois do“Batismo” simplesmente por questões de continuidade.

No Catecismo Maior Lutero explica: E aqui vês que o batismo, tanto por seu poder como por sua significação, também compreende o terceiro sacramento, que se chamou de penitência, o qual, propriamente, outra coisa não é que o batismo. Pois que outra coisa significa penitência senão atacar o velho homem com seriedade e entrar em nova vida? Por isso, se vives na penitência, então andas no batismo, que não apenas significa essa vida nova, mas também a opera, inicia e promove.Em sua concepção tanto do Batismo quanto da vida diária, a teologia luterana mostra uma compreensão realista da tensão da existência cristã e a fraqueza natural disfarçada pelo orgulho, que chamamos de natureza humana.( BRAND, Eugene L. Batismo: uma perspectiva pastoral. São Leopoldo: Sinodal, 1982)

Lutero formulou um manual litúrgico batismal, o Taufbüchlein, em 1523 e revisou-o em 1526. Na primeira versão, conservou algumas práticas medievais. Na segunda, omitiu certos elementos simbólicos, como por exemplo, as duas unções. Destaca-se, no Taufbüchlein, a chamada Oração do dilúvio: Onipotente eterno Deus, que de acordo com teu reto juízo condenaste o mundo incrédulo pelo dilúvio e, por tua grande misericórdia, conservaste o crente Noé e mais sete pessoas de sua família; que afogaste o endurecido Faraó com todos os seus, no Mar Vermelho; que conduziste o teu povo Israel através do mesmo em terra seca, prefigurando, com isso, este banho do teu santo Batismo; e que, pelo Batismo de teu querido Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, consagraste e instituíste o Jordão e todas as águas como um dilúvio bem-aventurado e uma rica lavagem dos pecados: pedimos por essa mesma [lavagem] tua profunda misericórdia, que queiras olhar graciosamente para este N. e abençoá lo com fé verdadeira no Espírito; para que, por meio deste dilúvio salvador, tudo o que lhe é inato desde Adão e que ele mesmo a isto acrescentou seja afogado nele e desapareça; que seja separado dentre o número dos descrentes, (...) conservado seco e seguro na santa arca da cristandade, sirva sempre a teu nome, ardendo em Espírito e alegre em esperança; para que, junto com todos os crentes, ele se torne digno de alcançar a vida eterna, de acordo com a tua promessa; por Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém.(LUTERO, Martinho. O Manual de Batismo Revisado).

Quanto à forma do batismo com água, Lutero preferia a imersão, por representar mais significativamente o afogar da pessoa pecadora. No entanto, não insistiu nessa modalidade e seus seguidores não a consideraram suficientemente importante para adotá-la. A infusão e a aspersão tornaram-se as formas comuns nas igrejas luteranas.

Fonte: Livro de Batismo da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil
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