Nós, os ramos.

Os frutos das pessoas ligadas à Jesus.

28/04/2018


“— Eu sou a videira verdadeira, e o meu Pai é o lavrador. Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta; e todo o que dá fruto ele limpa, para que produza mais fruto ainda. Vocês já estão limpos por causa da palavra que lhes tenho falado. Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês. Como o ramo não pode produzir fruto de si mesmo se não permanecer na videira, assim vocês não podem dar fruto se não permanecerem em mim. — Eu sou a videira, vocês são os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim vocês não podem fazer nada. Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo, e secará; e o apanham, lançam no fogo e o queimam. Se permanecerem em mim, e as minhas palavras permanecerem em vocês, pedirão o que quiserem, e lhes será feito. Nisto é glorificado o meu Pai: que vocês deem muito fruto; e assim mostrarão que são meus discípulos.” João‬ ‭15.1-8‬ ‭NAA‬‬


Querida comunidade ligada à Cristo Jesus.

‭‭Preguei sobre este texto inúmeras vezes. Ele sempre de novo reaparece em momentos importantes na vida das pessoas e no calendário litúrgico. Aliás, o quinto versículo seguidamente estará estampado em alguma lembrança de confirmação no mundo evangélico luterano: Eu sou a videira, vocês são os ramos... sem mim vocês não podem fazer nada. Sempre considerei como um dos meus textos queridos justamente por ser prático, plástico. Embora possamos fazer várias e importantes observações exegéticas e estruturais do texto, gostaria hoje de me limitar a compartilhar algumas vivências à luz do ensino de Jesus da forma como João o detectou.


O que vemos
Imagino Jesus caminhando nas terras pedregosas da Palestina onde pouca coisa se planta. Oliveiras e videiras certamente lhe chamavam a atenção pelo seu porte e pelo sabor de seus frutos. Interrompe seu caminho ao ver uma videira estendida na sua forma tradicional, a latada (casinha). Não sabemos se era exatamente assim, mas a forma da casinha é a mais antiga que se conhece. Ela produz muitos cachos de uva. Seus ramos podem ter o comprimento de 7 a 10 metros em solo adequado.

Havia uma pequena videira na casa onde nasci e fui criado. Meu pai, Augusto, ensinou como e quando fazer a poda da parreira. Não se corta o ramo muito perto do ramo principal, o braço. Devia deixar um ou dois nós de distância do ramo que iria fornecer a seiva. É destes nós que brotam as gemas que se estenderão em novos ramos. Às vezes precisava de força para puxar o ramo podado, porque, além de ser muito comprido, as gavinhas se enrolavam com firmeza nos arames estendidos como quem diz: daqui ninguém me tira. 

Jesus viu muitos destes ramos podados no chão e sabia que deles seria feito fogo. Nunca mais produziriam belos cachos de uva. Ao dizer “eu sou a videira verdadeira” fala aos ramos que ainda estão ligados a Ele. Aos que “permanecem” afirma que Ele é aquele em que se pode confiar, dEle se pode depender. “Eu sou” pode ser entendido como uma miniatura da promulgação do Evangelho , e com ela Jesus faz um chamado à fé, chama as pessoas a se perceberem pertencentes a Ele como uma comunidade de fé, bem como faz uma promessa às pessoas que permanecem neste pertencimento; darão frutos


O ramo e o agricultor
Me permitam uma licença hermenêutica. Embora o texto não faça isso, preciso lançar um olhar para o solo. É de lá que vem o vigor da videira e é onde trabalha o agricultor. “...meu Pai é o lavrador...” ressalta Jesus e ao Pai cabe a tarefa de ajeitar a terra. Os bons agricultores de hoje usam a técnica da espaldeira para conduzir suas videiras. Produzem menos, mas melhor. O método tradicional, o da casinha, faz o agricultor perder na qualidade do fruto porque a insolação é menor além de ter um custo maior. A espaldeira perde na quantidade, de 1 para 4 (se entendi bem!), mas ganha em qualidade para a produção dos melhores vinhos. A decisão é do agricultor sobre qual o método de condução usar.

O agricultor busca preservar o solo e se ocupa em fornecer as melhores condições para que a videira, os ramos e os cachos se desenvolvam. Para isso o agricultor usa técnicas interessantes. É usual plantar roseiras no início de cada carreira de pés. Uns dizem que é para preservar das formigas, outros, para denunciar algum ataque de pragas antes que cheguem aos parreirais. Deus, como lavrador, preserva a vida de seus seguidores – os ramos – ao colocar Sua palavra à disposição. A palavra de Deus aponta para Jesus Cristo – “O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus” – e é desta forma que somos preservados das pragas que nos tempos de hoje querem fazer adoecer a Igreja de Cristo, a empurrando para um relativismo, para o macro ecumenismo sem critérios e para a perda de importância na sociedade. 

A palavra sagrada do agricultor limpa o terreno e os ramos!

A videira e os ramos
O agricultor, com todo seu conhecimento, usa novas técnicas para melhorar os frutos. Percebe que em tempos frios e desfavoráveis o calor do sol fará a diferença nos resultados. Ao visitarmos uma vinícola na semana passada, encontramos uma videira em espaldeira com o solo coberto de pedras calcárias brancas. Não era apenas um capricho para causar boa impressão! Ouvimos a explicação: está sendo feito um teste para provar que as pedras sob o sol podem refletir luz e calor para a videira e seus ramos, além de corrigir a acidez do solo trabalhado pelo agricultor, à medida que recebe a chuva. É esperada uma produção maior e de ainda mais qualidade. “Mas para vocês que temem o meu nome nascerá o sol da justiça, trazendo salvação nas suas asas. Vocês sairão e saltarão como bezerros soltos da estrebaria” afirma o profeta de Malaquias‬ ‭(4.2‬ ‭NAA). Isso mesmo, mais sol, mais calor, mais cuidado para a videira e os seus ramos. Melhores resultados.

Como o solo bem preparado, receptivo aos nutrientes da Palavra, refletindo com qualidade a luz do sol da justiça, é a Igreja de Cristo que quer ser um bom lugar, um lugar acolhedor e favorável ao crescimento em fé, para todas as pessoas que se mantém ligadas à videira.

A videira, com todas as condições favoráveis providenciadas pelo lavrador, se mostra ativa. Jesus, por assim dizer, se projeta para fora da videira com força, com vigor, como as gemas nos ramos se projetam para o sol e se agarram com suas gavinhas para que os ramos tenham forças e frutificar.

“permanecer em mim”
Com todas as condições favoráveis providenciadas pelo agricultor, com a videira forte e confiável, chega a vez de os ramos mostrarem sua função na vindima. 

A palavra chave do texto lido é, sem dúvida, “permanecer”. O que significa “permanecer”? Certamente não se trata de uma posição de inatividade. Não é encarar os fatos com brandura ou tolerância excessiva. Embora não denote movimento, “permanecer” significa manter a condição de avanço, de frutificação. É se manter no processo de condução da seiva, da vida. É se manter ligado. É aí que Jesus, a videira verdadeira, entra em cena: vem e nos tira de nossa inércia, nos tira da falta de interesse. A videira verdadeira, Jesus, nos faz distanciar da tentação de perder a fé e diz: “assim mostrarão que são meus discípulos”. A videira Jesus faz correr em nós a seiva da vida, da transformação pessoal que leva à santificação e à transformação social. É seiva de amor que corre em nós, seiva de perdão, seiva de reconciliação.

É na condição da permanência dos ramos ligados à videira que os frutos acontecem. Sim, acontecem, porque surgem de forma natural. Os frutos de uma videira, através de seus ramos, serão cachos da exuberância dos valores do reino de Deus.

A simples permanência em Cristo trás enorme e incalculável ganho para toda a humanidade. É o fruto que se apresenta; lindo e saboroso. Tudo porque há um agricultor na nossa vida. (O tão festejado Saint-Exupéry afirma que não temos agricultor!) É Deus quem cuida para que sejamos discípulos e discípulas carregados/as de frutos. É Ele quem faz as podas, doloridas, mas necessárias.

O fruto vem dos ramos da videira cuidada pelo agricultor. Jesus Cristo é a videira verdadeira. Os frutos pertencem a Jesus e ao gosto de Jesus. E o fruto só serve para servir a outros, não a si mesmo. O fruto deve ser incentivo para que outras pessoas creiam e se permitam permanecer unidas a Cristo. O fruto é amar a Deus e, com isso, encontrar caminhos de reconciliação e de perdão.

Conclusão
Queridos ramos,
Deus é amor e demonstra cuidado amoroso para com todas as pessoas. Lamenta por aquelas que ainda são ramos separados da videira e cultiva com carinho aqueles ramos que permanecem unidos a Ele. Mas como Ele é o agricultor criador de todas as coisas, têm em suas mãos o poder de enxertar aqueles ramos separados, reunindo à videira aqueles que se perderam e se separaram. Vamos pedir por estes, interceder, porque “pedirão o que quiserem, e lhes será feito”.

Ramos, tudo isso acontece porque temos um lavrador a nos cuidar: O Pai! Jesus disse: “...meu Pai é o agricultor.” Ele cuida. Ele se importa conosco. Ele observa e muda aquilo que poderia significar uma ameaça ao galho que poderia vir a se tornar infrutífero.

Fiquemos juntos e unidos à videira verdadeira.

Amém!
 

Em tempo: Ouço sempre de novo dizer que para a nossa igreja não importa a quantidade, mas sim a qualidade. Se referem à quantidade de membros que continua decaindo na maioria das Comunidades e Paróquias. O mesmo acontece com as diferentes formas de condução de uma videira e os resultados que apresentam. O que é mais adequado e desejável no contexto do reino de Deus, já aqui e agora?


Autor(a): Pr. Rolf Rieck
Âmbito: IECLB / Sinodo: Sudeste / Paróquia: Rio de Janeiro - Martin Luther (Centro-RJ)
Área: Confessionalidade / Nível: Confessionalidade - Prédicas e Meditações
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 15 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 8
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 46986
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Quando Deus não está no barco, não se navega bem.
Martim Lutero
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