Milagres em nossa vida

Pregação sobre o texto de João 6.1-21 (Culto da Família)

29/07/2018


João 6.1-21

Que a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos nós. Amém.

Prezada comunidade, o texto do Evangelho de João previsto para este domingo engloba dois, digamos assim, milagres de Jesus, realizados em um momento emblemático. Isto porque na época em que Jesus realiza estes e outros milagres já é um período próximo à Páscoa, como é dito no versículo 4. Jesus já sabia que a sua hora de voltar para o pai estava próxima. Então, neste contexto, Jesus realiza mais estes dois milagres ou sinais milagrosos: a multiplicação dos pães e peixes e o caminhar por sobre as águas.

Mas afinal, o que queremos dizer quando falamos em milagres? Ao meu ver, quando falamos de milagres estamos falando de tudo aquilo que extrapola a lógica humana, ou seja, está além da nossa compreensão e, que muitas vezes, desafiam inclusive as leis da natureza.

Creio que ao realizar milagres, Jesus está revelando quem de fato ele é. Entretanto é interessante perceber que a sua identidade não tem muito a ver com aquilo que o povo e os de seus discípulos, em geral, esperavam que fosse. Pois no versículo 15 diz que vendo Jesus que pretendiam proclamá-lo rei, ele se retira para fugir dessa ideia e expectativa que tinham dele.

Mas o que exatamente estes milagres podem nos ensinar?

Antes de realizar a multiplicação dos pães e dos peixes Jesus pergunta a Filipe: “Onde compraremos pão para esse povo comer?” E a seguir é dito que ele fez esta pergunta com a intenção de por o seu discípulo a prova. Creio que Jesus tinha a intenção de testar a fé de Filipe naquele momento. Racionalmente falando é evidente que cinco pães e dois peixinhos seriam insuficientes para alimentar cinco mil homens. Mas é justamente daí que podemos tirar uma conclusão: a fé não pode ser meramente racional. Está escrito em Hebreus 11.1 que: “a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos.” Desse modo o inesperado pode vir a acontecer, e nós temos motivo para crer no poder da fé. Inclusive na leitura que fizemos da espístola aos Efésios, Paulo fala de um poder que nos será concedido. Ora, no grego, a palavra é dünamis e está intimamente ligado com a palavra milagre, sendo inclusive uma possibilidade de tradução, embora que normalmente seja traduzido por poder.

Mas também é importante perceber o teor deste primeiro milagre. Quando percebemos o que o alimento físico simboliza e representa no campo mais espiritual vemos que alimento é experiência de dependência. Alimentar-se é depender de alguém ou de uma realidade para além de nós. Jesus ensina aos seus discípulos, e a nós, a sempre dependermos do Criador. Além disso a refeição lembra outro aspecto simbólico: o da comunhão. Comer e beber junto com irmãos e irmãs, dependendo de uma fonte comum, é expressar a nossa unidade originária, e a possibilidade de viver uma solidariedade mútua e fraterna.

A seguir, a noite vem e os discípulos de Jesus seguem em direção a Cafarnaum, de barco. As coisas não estavam tranquilas para os discípulos, o texto diz que havia um vento forte e que as águas estavam agitadas. Quando já estavam bastante adiantados eis que surge Jesus, andando sobre as águas. Será que os discípulos o esperavam? Pela reação deles é fácil perceber que não.

Mas quantas vezes em nossas vidas não duvidamos da intervenção e agir de Deus? Quantas vezes deixamos de contar com a presença dele? O salmista expressa esse sentimento de abandono e desesperança quando no Salmo 3 diz: “São muitos os que dizem de mim: Não há em Deus salvação para ele.”
Provavelmente os discípulos também estavam desacreditados quando se encontravam atravessando o mar da Galileia. Jesus tinha ficado em terra, ao que tudo indica sem um barco à sua disposição e creio que ir nadando fosse um tanto quanto inviável. Mas mais uma vez os discípulos se engaram ao não acreditarem no extraordinário, pois Jesus veio ao encontro deles, andando por sobre as águas. Podemos perceber facilmente que os discípulos eram muito humanos, pessoas comuns como cada um de nós. Pois a vida é repleta de momentos assim. Por vezes estamos tão desanimados e sem esperança que já não cremos que Jesus vem. E afinal de contas: ele aparentemente não tinha como vir mesmo, então porque espera-lo? Pois é justamente aí que esquecemos de quem Jesus é e de tudo o que ele é capaz.

Sabemos, entretanto, que milagres como estes não são usuais. Contudo não podemos, nem devemos, esquecer dos pequenos milagres do nosso cotidiano. Acredito que milagres grandiosos como estes também apontam e reforçam a necessidade de percebermos todas as coisas que vivenciamos de forma milagrosa no nosso dia a dia e de que precisamos cair em si que somos e estamos nutridos, pela fé, do poder de realiza-los. Mas em meio à um mundo que tanto fala em certos milagres e em prosperidade, eu não quero falar de curas ou expulsão de demônios.

Gostaria de aqui enumerar alguns milagres que provém do amor de Deus, em Cristo, por nós:

Primeiro gostaria de falar do milagre da alegria. Momentos de alegria genuína, na minha visão, são milagres. Em meio a nossa natureza caída e pecadora podemos desfrutar deste sentimento e sentir um pouco do gosto do gozo eterno que nos está reservado na eternidade. Isso é graça, é presente de Deus.

E por que não falar do milagre da comunhão fraterna? O milagre de conseguirmos abraçar e aceitar o nosso próximo e a nossa próxima com todas as suas diferenças. Quando abrimos mão dos juízos que nós sentenciamos às outras pessoasoOu o milagre de vivermos enquanto famílias e igreja de Jesus Cristo, com as dificuldades naturais de qualquer relacionamento, mas persistindo em estarmos sempre juntos.

Há ainda o milagre do perdão e da gratidão, tão caros por nós, cristãos, mas que nem sempre lembramos de vivenciá-los verdadeiramente.
E indo ainda nesta linha de apurar a nossa percepção das coisas que nos rodeiam, gostaria de finalizar com uma pequena história que visa ressaltar esta necessidade de estarmos atentos aos sinais em nossas vidas. Talvez seja conhecida de alguns. Diz o seguinte:

“Um certo homem, uma vez, enquanto confabulava sussurou: Deus, fale comigo! Imediatamente um rouxinol começou, então, a trinar.
Mas o homem não prestou atenção. E voltou logo a perguntar: Deus, fale comigo! E instantaneamente um trovão reboou pelo espaço.
Mas o homem não deu importância. Perguntou, em seguida: Deus , deixa-me vê-lo! E uma enorme lua brilhou no céu profundo. Mas o homem nem reparou. Nervoso, começou então a gritar: Deus, mostra-me um milagre! E eis que uma criança nasceu. Mas o homem não se debruçou sobre ela para admirar o milagre da vida.

Desesperado, voltou a gritar: Deus, se você existe, me toque e me deixa sentir a sua presença, aqui e agora. E uma borboleta pousou, suavemente, em seu ombro. Mas ele, irritado, a afastou com a mão”. “Desiludido, então, e entre lágrimas, continuou seu caminho. Vagueando sem rumo. Sem nada mais perguntar. Só e cheio de medo. Porque não soube ler os sinais da presença de Deus”.

Que nós, enquanto famílias e igreja de Deus, possamos estar atentos e gratos para as coisas maravilhosas que nós vivemos em nossas vidas e que nos são concedidas. Que possamos buscar sempre de novo o nosso auxílio em Deus, sabendo que Ele vem, nem sempre da maneira como gostaríamos que Ele viesse, mas Ele vem.

Que o Espírito Santo nos dê a sabedoria necessária para discernimos o agir de Deus em nossas vidas e que possamos também ser luz para quem dela precise. Amém.
   


Autor(a): est.theol. Arthur Schiller
Âmbito: IECLB / Sinodo: Sudeste / Paróquia: Rio de Janeiro - Martin Luther (Centro-RJ)
Área: Confessionalidade / Nível: Confessionalidade - Prédicas e Meditações
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 6 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 21
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 48103
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Não há pecado maior do que não crermos no perdão dos pecados. Este é o pecado contra o Espírito Santo.
Martim Lutero
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