Maria e os santos

13/02/2012

Existem muitas citações na internet dizendo que Lutero foi um devoto de Maria. Isso é verdade? Afinal, como vocês vêem Maria e os santos?

M.,  antes de entrar diretamente na sua questão é necessário mostrar os óculos com os quais os protestantes de um modo geral e, por isso, também os luteranos, olham Maria e as pessoas que receberam ao longo da tradição cristã a denominação de santos e santas.

As pessoas denominadas santas vivenciaram a fé cristã nos primeiros séculos do cristianismo e fazem parte da nuvem de testemunhas (Hebreus 12.1). Pela sua fé e testemunho vivencial são lembradas como exemplos a serem imitados. Elas viveram a condição humana como qualquer outra pessoa e encontraram na graça de Deus acolhida e força para seguir nos caminhos desejados por Deus. Em momento algum os protestantes/luteranos os adoram e fazem deles mediadores junto a Deus.

Como evangélicos de confissão luterana não adoramos a Virgem Maria, no sentido de dirigir-lhe orações e prestar-lhe culto, nem a veneramos como mediadora da salvação. Tributamos à mãe de Jesus todo o respeito, assim como Lutero o fazia.

Segue a transcrição das frases introdutórias e finais da obra de Lutero intitulada Magnificat, em que ele interpreta o cântico de Maria, de Lucas 1:46-56. O título latino corresponde ao Engrandece do versículo 46: Minha alma engrandece ao Senhor. O Magnificat é um texto de Lutero  escrito em 1521.

Da introdução ao livro Magnificat, de M. Lutero:

“Para entendermos este santo cântico de louvor em sua ordem, deve-se considerar que a altamente louvada virgem Maria fala de experiência própria, na qual ela foi iluminada e instruída pelo Espírito Santo. Pois ninguém é capaz de entender corretamente a Deus ou a palavra de Deus a não ser que o tenha do Espírito Santo; todavia, ninguém o pode ter do Espírito Santo se não o experimentar, sentir ou perceber. Nessa experiência o Espírito Santo ensina como em sua própria escola; fora dela nada se ensina além de palavras que buscam a aparência e conversa vazia. É este o caso da santa virgem. Depois de ter experimentado em sua própria pessoa que Deus realiza nela coisas tão grandes, apesar de ter sido nada, insignificante, pobre e desprezada, o Espírito Santo lhe ensina este rico conhecimento e sabedoria: que Deus é um Senhor que não faz outra coisa do que exaltar o que é humilde, de humilhar o que é elevado, em suma, de quebrar o que está feito e de refazer o que está quebrado. (...)

O mesmo faz aqui a doce mãe de Cristo, ensinando-nos, pelo exemplo de sua própria experiência e por meio de palavras, como se deve conhecer, amar e louvar a Deus. Pois aqui ela se gloria e louva a Deus com um espírito saltando de alegria, dizendo que ele havia posto o olhar nela, sendo ela humilde e nada. (...) Sem dúvida, as filhas dos sumos sacerdotes e conselheiros de Jerusalém eram mais ricas, belas, jovens e cultas, gozando da mais honrosa reputação aos olhos de todo o país, como hoje as filhas dos reis, príncipes e pessoas abastadas. (...)”
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No final do livro:

“Queira essa doce mãe de Deus conquistar-me o espírito capaz de interpretar de forma proveitosa e profunda esse cântico, para que dele (...) todos nós possamos tirar uma compreensão proveitosa e uma vida louvável, e para que assim, na vida eterna, possamos louvar e cantar esse Magnificat eterno. Que Deus nos ajude. Amém.”

Seguem mais algumas citações de Lutero:

Queremos ter em toda honra a amada virgem e santa mãe, como ela na verdade é digna de ser honrada. Mas não queremos honrá-la, fazendo-a igual ao seu filho Cristo. Pois ela nem foi crucificada nem morreu por nós(...). Por isso que se honre a mãe Maria como se queira, mas só que não seja honrada com a honra com que se deve honrar a Cristo. E esta é também a causa pela qual o Senhor afasta de si a sua mãe. Pois ele quer ser sozinho aquele a quem devemos seguir.

(...) que Deus com nenhuma palavra mandou pedir nem a anjos nem a santos para que roguem por nós (...). E encontra-se também que culto aos santos é pura invenção humana fora da palavra de Deus e da Escritura(...). Por isso não se deve aconselhar nem permitir que alguém ensine a invocar na prece os santos falecidos...

(...) deve permanecer sempre a distinção entre quem dá a graça e quem recebe a graça. Aquele que dá a graça, junto de quem se deve buscar a graça e não junto daquele que ele próprio gozou da graça(...).Para obviar este erro, note isto literalmente: Maria, encontraste graça junto de Deus. Então aprendas a ter-te por uma pessoa humana que chegou à graça, e não que deve distribuir graça. Pois para isso foi destinado o teu Filho, nosso amado Senhor Jesus, para que busquemos graça dele e por ele devamos chegar à graça(...).

Tenho a impressão, estimada M., que você pode deduzir claramente a posição luterana sobre Maria. Respeito, sim, como irmã na fé. Adoração, não, como mediadora da salvação.


Âmbito: IECLB
Natureza do Texto: Vários
Perfil do Texto: Sala de Tomé
ID: 12667
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