Fé e prática

A fé que vai da ortodoxia para a ortopráxis

04/11/2017

Mateus 22.1-12
Prezada Comunidade.

Essa última semana foi bastante intensa. No mundo todo – e também aqui em Belo Horizonte - celebramos o dia 31 de outubro e com isso os 500 anos da igreja luterana. O culto aqui em Belo Horizonte reuniu 900 pessoas. Penso que isso representou um novo ânimo no ecumenismo nessa cidade e também um avivamento de nossa Comunidade que foi a organizadora desse grande encontro.

Mas e agora? O que vai acontecer depois da festa? O que Deus espera de nós daqui para frente?
Valorizar a tradição não significa ser um guardião das cinzas do passado, mas passar para frente o calor da chama.

O Evangelho de hoje nos fala do conflito entre Jesus e os fariseus e escribas. Jesus não condenava a sua doutrina (cf. Mt 23.3), mas Jesus questionava a sua mentalidade (de hipocrisia e soberba). Os fariseus foram os guardiões da revelação do antigo testamento. Mas os seus princípios unilaterais – o seu tradicionalismo - a sua mentalidade fechada levaram Jesus a criticá-los mais de uma vez.

O zelo exagerado pela lei e pela pureza legal teve como consequência não uma comunidade unida pela solidariedade e amor, mas um isolamento e um desprezo pela “massa ignorante e impura” (o povo) e um particularismo exacerbado. A mentalidade exclusivamente jurídica trouxe consigo formalismo e hipocrisia, além de um congelamento da religião judaica, de modo que secaram aquelas correntes férteis do AT como, por exemplo, o profetismo.
Jesus então ensina a seus seguidores uma regra de vida comunitária. Os discípulos não podem seguir o esquema montado pelos fariseus, em que os títulos ou regras são mais importantes do que as necessidades das pessoas. Os seguidores de Jesus devem atuar diferente. Todo tipo de organização humana necessita de normas de funcionamento. Também na igreja é assim. Uma igreja que não tem normas vira bagunça. Certas pessoas têm que estar incumbidas de algumas tarefas, pois todo mundo não pode fazer tudo. Mas uma igreja de Jesus Cristo não deve ser opressora. Assim era a igreja há 500 anos atrás, no tempo de Martin Lutero. Uma igreja de Jesus Cristo de confissão luterana deve ser uma igreja aberta, acolhedora, inclusiva, tal qual Jesus queria.

A religião de Jesus é uma religião de amor, de liberdade. O ponto de orientação para todo seguidor(a) de Jesus deve ser a lei do amor: Amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo como a si mesmo..

Portanto, Jesus critica aqui o excesso de rigor e de controle dos fariseus e escribas sobre o povo, dizendo que eles colocam muito peso sobre as pessoas – com leis para tudo – quando a lei mais importante deveria ser somente uma: amar a Deus sobre tudo e amar ao próximo como a si mesmo.

Mas, o mundo mudou e hoje já não vivemos mais debaixo das leis dos fariseus e escribas. Aliás, o que mais se vê hoje é o desrespeito as leis. A lei sobre o excesso de velocidade no trânsito somente é respeitada diante da sinaleira e do radar. A lei do respeito a Natureza e a propriedade do outro fica em segundo plano diante da possibilidade de explorar os recursos naturais e ganhar muito dinheiro. Hoje (5 de novembro) fazem exatamente dois anos que estourou a barragem de Fundão da Samarco em Mariana. O rio de lama desceu a montanha e destruiu tudo pela frente. Uma vila inteira foi coberta pela lama. 19 pessoas morreram. A lama continuou pelos rios por 600 km até chegar no Oceano no Estado do Espírito Santo. E dois anos depois, ninguém foi responsabilizado ou condenado pela justiça.

Situação muito semelhante ameaça acontecer em outras mineradoras do estado mineiro – como no município de Conceição do Mato Dentro, onde está a Mineradora Anglo. Mas, quem se importa?   

Recentemente ouvimos que o doleiro criminoso Lucio Funaro afirmou à Justiça Federal de Brasília que Michel Temer recebeu R$ 2,5 milhões de propina do Grupo Bertin. Sabe qual foi o impacto desta informação em Brasília? Zero. Depois que o assessor do presidente da República foi flagrado com uma mala na mão e nada aconteceu, é como se Temer estivesse blindado. Os políticos se acostumaram a ouvir revelações escandalosas, sem se abalar. As desculpas se repetem nas frases feitas dos advogados. Acusados com foro privilegiado se assustaram no começo das investigações, mas, agora, nem ligam para as delações. E tudo isso acontece com a complacência da sociedade e do judiciário. Portanto, estamos vivendo um período onde os valores cristãos – como a honestidade, o respeito, a justiça, a honradez – tudo isso é violado pela maioria das pessoas que estão no poder, sem nenhuma consequência ou punição. E como diz o cantor Zé Geraldo numa canção dos anos 80: Isso tudo acontecendo e eu aqui na praça, dando milho aos pombos. Ou seja, isso tudo acontecendo e também eu não estou nem aí.

Portanto, hoje parece que estamos vivendo a situação inversa da que Jesus viveu com os escribas e fariseus. Se no Evangelho o problema era o excesso de leis – hoje o problema parece ser o descarado desrespeito as leis. Quem está no poder faz a lei à sua medida, com a complacência da sociedade.
Essa situação atual faz que algumas pessoas se identifiquem com regimes autoritários. Mas será que um regime autoritário vai mudar essas coisas? Afinal, precisamos reconhecer que a corrupção não está somente nos políticos, está presente em toda sociedade. A falta de valores está em toda sociedade, está dentro de nós mesmos. Por isso, somos nós que precisamos mudar. São as igrejas que precisam se unir para lembrar as pessoas que esse mundo precisa de mais tolerância, de mais justiça social, de mais perdão, de mais amor. Devemos lembrar o que Jesus disse: a lei mais importante é amar a Deus sobre tudo e amar ao próximo como a si mesmo. Jesus nos dá a fórmula para um mundo melhor, para uma vida mais feliz.

E se fecharmos os nossos ouvidos a esse chamado de Jesus, certamente vamos nos arrepender e lamentar diante da geração depois de nós. Afinal, com que autoridade vamos falar de respeito, de honestidade, de amor a Deus e amor ao próximo aos nossos filhos e netos? Será que eles não vão nos responder assim: Ah pai, ah mãe isso é coisa de antigamente! Hoje o mundo é dos espertos. Hoje a lei é: rouba mais quem pode mais.

O filósofo alemão Nietsche (neto de pastores luteranos) escreveu o livro Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém em 1885. O livro fala dos valores da sociedade industrial e do poder do “super-homem” que com a industrialização era capaz de fazer qualquer coisa. Dentro do livro tem uma história, onde Zaratustra caminha pelas ruas – em pleno meio dia – com uma lanterna acesa. Ele caminha pelas ruas, vai nas praças, entra nas lojas, nas casas, nas fábricas e nas igrejas com aquela lanterna acesa e quando alguém lhe pergunta o que ele está fazendo, Zaratustra responde: Estou procurando por Deus!

Ele diz que está procurando pelos valores de Deus nessa nova sociedade. E quando ele não encontra mais o amor a Deus e o amor ao próximo nas relações entre as pessoas, então ele conclui que Deus, naquela sociedade industrial, está morto. Portanto, ele conclui que quando os valores cristãos, a vontade de Deus, não são mais respeitados na sociedade, então Deus está morto nessa sociedade. O que diria Zaratustra sobre os valores de Deus na nossa sociedade de hoje?

Quero lembrar ainda uma frase importante do pastor e ativista político Martin Luther King. Ele dizia nos anos 1960 o seguinte: “O que me preocupa não é o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética... O que me preocupa é o silêncio dos bons.” 
Amém.

 


Autor(a): Nilton Giese
Âmbito: IECLB / Sinodo: Sudeste / Paróquia: Belo Horizonte (MG)
Área: Confessionalidade / Nível: Confessionalidade - Prédicas e Meditações
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 23 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 12
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 44631
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