Eleições 1989

Carta Pastoral da Presidência

24/08/1989

A 15 de novembro do corrente ano, o Brasil comemora o centenário da Proclamação da República que deu início a regime democrático no País. A data vem atender, após longa espera, um ardente anseio da Nação:

Volta a ser eleito, por voto popular, o Presidente da República. O evento se reveste da mais alta importância, também para a comunidade evangélica de confissão luterana. Ela faz parte da sociedade e, conseqüentemente, tem um compromisso político. Eis a razão desta carta.

As eleições ocorrem em momento particularmente tenso, marcado por sérias ameaças. O clamor por mudanças e melhores dias adquiriu intensidade sem precedentes. Caso for ignorado, a fúria dos que, mais uma vez, vêem frustadas as esperanças, pode detonar horrivelmente. Já agora o flagelo da violência assola o País. É de temer que há de agravar-se, caso não forem tomadas medidas urgentes em favor da elevação e proteção dos salários, de mais justiça, de melhor distribuição de renda e propriedade.

A consciência cristã deve o alerta a governantes, candidatos e eleitores. Não pode conformar-se com o crescimento da miséria e seus nefastos efeitos colaterais. Exige uma política social, econômica e agrária que seja responsável diante de Deus e da Nação, voltada, em especial, às necessidades dos segmentos desprivilegiados. É o que deverá determinar o comportamento eleitoral do cristão e de toda pessoa de boa vontade. Vai resistir a promessas enganosas, meramente demagógicas, traidoras dos justos reclamos do povo.

Como evangélicos de confissão luterana temos motivos para insistir em alguns importantes princípios:

1. Também a política está sob a exigência divina. Não é campo neutro, alheio à fé. Muito embora a Igreja não possa constituir-se em partido político ou grupo ideologicamente definido, cabe-lhe publicamente lembrar a vontade de Deus, válida para cristãos e não cristãos.

Vai priorizar a ética, opondo-se à corrupção, ao crime, ao fisiologismo, enfim à brutalidade que tantas vítimas faz. Candidato à Presidência deve ser sensível frente a sofrimento humano, saber enfrentar as forças que o produzem e empenhar-se na moralização das instituições públicas.

2. É espantosa a fragilidade da democracia no País. Sempre de novo é declarada ameaçada. Entendemos ser o regime democrático merecedor de compromisso especial por parte dos cristãos em nossos dias. Oferece as melhores chances de corrigir as distorções sociais e de superar a injustiça. Valoriza o cidadão e simultaneamente o responsabiliza. Cumpre assim o que a Bíblia diz sobre a dignidade do ser humano em sua qualidade de criatura amada por Deus. O espírito democrático não permite à Igreja privilegiar candidatos ou partidos de sua simpatia. Aposta na maturidade e responsabilidade dos eleitores. Não os sujeita a tutela eclesiástica. Pela mesma razão espera-se que candidato à Presidência da República saiba respeitar a instituição democrática e a soberania política do povo que lhe confere o mandato.

3. Política, além da ética, exige o bom senso, a sobriedade, o realismo. Deve ser livre de obsessões ideológicas causadoras de prejuízo à democracia, à paz social e ao bem comum. Nas campanhas eleitorais, o que interessa não é a polêmica, o apelo emocional, a mera oposição à situação vigente. Importante mesmo é a proposta de governo. Candidato à Presidência deve prestação de contas de seu programa e da maneira como pretende alcançar os objetivos.

As eleições deste ano representam, outra vez, um tênue fio de esperança no sombrio horizonte político brasileiro. Seria ilusório esperar milagres do novo Presidente. Vai necessitar da cooperação do povo, do congresso, dos partidos, dos meios de comunicação. Mas o esforço não admite delonga. Passos enérgicos deverão ser dados em direção a mais paz e mais justiça, mais credibilidade e melhores condições de vida.

A comunidade evangélica de confissão luterana no Brasil conclama eleitores e eleitoras a pesarem o seu voto, a participarem da conscientização democrática e a colaborarem na construção de um futuro melhor.

É o que Deus espera. Irresponsabilidade está sob seu juízo. Sua bênção, tão almejada, pressupõe o nosso esforço.

Porto Alegre, 24 de agosto de 1989

Dr. Gottfried Brakemeier

Pastor Presidente
 


Autor(a): Gottfried Brakemeier
Âmbito: IECLB
Área: Missão / Nível: Missão - Sociedade / Instância Nacional: Presidência
Natureza do Texto: Manifestação
Perfil do Texto: Manifestação oficial
ID: 12573
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Cada qual deve se tornar para o outro como que um Cristo, para que sejamos Cristos um para o outro e o próprio Cristo esteja em todos, isto é, para que sejamos verdadeiros cristãos.
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