Educação - Fundamentos Teológico-Confessionais

Justificação por fé e graça

Em Jesus Cristo, Deus revela-se ao mundo e, de forma especial, ao ser humano. Deus concede a sua misericórdia, oferece a sua graça e o dom da fé, resgatando a dignidade humana. O ser humano, em sua busca pela transcendência, encontra-se com o Deus revelado e encarnado, e, deste encontro, surge a possibilidade da nova criação, da nova vida.

A revelação de Deus é decorrência de seu amor pela humanidade e ocorre independentemente de méritos humanos. A radicalidade da graça e do amor de Deus dispensa a necessidade de retribuição humana. O apóstolo Paulo afirma: “onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Romanos 5.20).

O amor de Deus antecede qualquer intenção humana, qualquer boa vontade, qualquer desejo de realizar algo bom. Deus declara: “Não vos teve o Senhor afeição, nem vos escolheu, porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo, (...), mas porque o Senhor vos amava e para guardar o juramento que fizera a vossos pais” (Deuteronômio 7.7-8).

A radicalidade da graça e do amor de Deus nos compromete a agirmos de forma semelhante e nos desafia a amarmos o nosso interlocutor no processo educacional. A aceitação da pessoa e a abertura para o diálogo não dependem dos méritos do nosso interlocutor, mas são decorrência da nossa relação com Deus.

O modo como Deus age em nosso favor também nos desafia a testemunharmos por meio de obras a sua graça. É nossa tarefa promover, através da educação escolar, comunitário-eclesial e popular, o bem-estar, a igualdade social e econômica entre as pessoas, cuidando e zelando pela integralidade da Criação.

A ação de Deus em favor do ser humano nos desafia a acolher a alteridade, que decorre do respeito à dignidade da pessoa. Deus age em favor da pessoa, que não vive de forma isolada, mas em comunidade. Deus age em favor do coletivo (Êxodo 3.14-19). Isto nos ensina o valor do comunitário, lembrando a interdependência e a colaboração mútua como valores essenciais para a coletividade.

A liberdade cristã

A liberdade cristã é um dos pilares fundamentais da teologia luterana. Lutero define a liberdade da seguinte forma: “O cristão é um senhor livre de tudo, a ninguém sujeito – pela fé. O cristão é um servo dedicado a tudo, a todos sujeito – por amor”. Por causa do perdão e da salvação, dados por meio da morte e ressurreição de Jesus, nós podemos viver em alegria, sem precisar fazer por merecê-los. A liberdade não é uma conquista humana, mas fruto da ação de Deus entre as pessoas.

O princípio da liberdade cristã exclui toda forma de fanatismo e dogmatismo, seja teológico ou pedagógico. Ele estabelece um processo que avalia continuamente a forma como acontecem o testemunho da fé e o ensinamento do conteúdo da fé, evitando toda e qualquer imposição ou constrangimento na transmissão do Evangelho.

Quem assume a liberdade para a qual Cristo nos libertou não precisa ter medo de nada e pode dispor de tudo. A pessoa cristã sabe que não é senhora de sua vida, mas Cristo é o seu Senhor. Portanto, ao fazer escolhas, mesmo sabendo que tudo lhe pertence, a pessoa seleciona com critério. Quando ficamos dependentes de algo ou de alguém, voltamos “de novo ao jugo da escravidão” (Gálatas 5.1).

Na medida em que vivemos a liberdade em Cristo, não nos submetemos a nada e nem nos sujeitamos a ninguém. Ser cristão evangélico luterano implica servir aos semelhantes como Cristo se deu às pessoas (Marcos 10.45). Neste sentido, Lutero diz que a pessoa cristã é um servo dedicado a tudo, a todos sujeito. E, como disse Lutero, baseando-se em Mateus 25.31-46, de forma mais concreta: “Deve-se ler a vontade de Deus nos olhos dos necessitados”. Cristo faz de nós pessoas livres para viver a cada dia o amor de Deus de uma forma responsável. Este é o jeito luterano de seguir a Jesus Cristo.

Sacerdócio geral de todos os crentes

 A IX Assembléia da Federação Luterana Mundial (FLM), realizada em julho de 1997, declara:
“As comunidades cristãs são chamadas a serem luz do mundo e sal da terra. Portanto, recebem poder para serem confessantes, includentes, tolerantes, serviçais e solícitas, reconciliadoras e inspiradas pelo amor abnegado de Cristo, se reúnem regularmente em torno de Cristo e do Espírito Santo para receberem o amor de Deus e serem capacitadas para levá-lo ao mundo”.

A declaração da FLM tem sua base no Evangelho de Jesus. Nosso Senhor chamou, instruiu e enviou pessoas para exercerem diferentes funções e atividades. O ministério é de Jesus. É ele quem nos chama e orienta à ação. O sacerdócio geral de todos os crentes é o ministério de Jesus confiado a cada pessoa, a cada comunidade que professa Jesus como Senhor e Salvador.

O princípio do sacerdócio geral de todos os crentes nos desafia a sermos participantes efetivos do processo de ensino e aprendizagem, tornando-nos co-responsáveis na proclamação do Evangelho, na comunicação do Evangelho. O sacerdócio geral de todos os crentes exige o exercício da cidadania e a compreensão de que a responsabilidade social e política não são delegadas às outras pessoas, mas exercidas por mim, em conjunto com outras pessoas.

A partir deste princípio, assume-se a tarefa teológico-pedagógica de convocar as pessoas para o exercício da cidadania. A convocação não é somente uma ação de conscientização social, mas de adesão voluntária. A compreensão teológica do sacerdócio geral de todos os crentes implica uma relação igualitária entre os diferentes. Cada ser humano, na sua individualidade, é diferente; tem conhecimentos e experiências diferenciadas; tem construções simbólicas distintas e vive em contextos específicos, estabelecendo redes de relações de forma peculiar e própria.

O sacerdócio geral de todos os crentes tem relação direta com a compreensão de ministério compartilhado na IECLB. Por meio dele, diferentes pessoas, a partir dos dons recebidos do Espírito Santo e do chamado ao discipulado, exercem atividades distintas na promoção do Evangelho. Também aqui, as diferentes funções e atividades exercidas devem ser vistas como serviço em favor do testemunho do Reino de Deus e da integralidade da Criação.

Igreja reformada – em constante reforma

Eu, embora velho doutor das Escrituras, não compreendo ainda direito os Dez Mandamentos, o Credo e o Pai-Nosso; eu não posso estudar a fundo nem aprendê-los totalmente, assim aprendo o Catecismo dia após dia e oro com o meu filho João e a minha filha Madalena.
 Martim Lutero

Tanto a aprendizagem da fé quanto a educação em geral exigem um processo de construção permanente e dinâmico. Nos diferentes ciclos da vida, a pessoa manifesta a sua religiosidade, sua convicção de fé e seu processo de desenvolvimento, dependendo do contexto e das condições existenciais, culturais e de aprendizagem.O potencial humano é ilimitado e possibilita dimensões imensuráveis de aprendizagem. O potencial humano, por ser contínuo, dinâmico e versátil, possibilita que diariamente se possam criar e recriar comunidades e novas aprendizagens, sejam estas individuais ou coletivas.

A Federação Luterana Mundial, em sua atual reflexão teológico-pedagógica, tem formulado o conceito de jornada da fé ao longo da vida. A aprendizagem da fé não se restringe a um período da vida, pois em cada ciclo há perguntas existenciais que promovem novos processos de aprendizagem. A comunidade de fé tem a responsabilidade de proporcionar oportunidades de aprendizagem, tanto no contexto escolar quanto comunitário-eclesial e popular, possibilitando a retomada, a ressignificação e novas construções do conhecimento. A concepção Igreja reformada – em constante reforma permite que normas, ações, práticas sejam avaliadas e reformadas.

O princípio eclesiológico de Igreja reformada – em constante reforma e o princípio pedagógico de formação continuada desafiam a Igreja e a Educação a refletirem sobre a ação, na ação e para a ação. Este processo possibilita um constante pensar sobre o seu estar no mundo e a sua responsabilidade com a Criação.

Os dois princípios mostram que toda e qualquer Política Educacional na IECLB sempre será uma proposta do momento presente. E qualquer proposta construída sempre será resultado da correlação estabelecida entre os processos teológicos, históricos, educacionais, políticos e sociais que agem e interferem na sua concepção.

Fonte: Diretrizes de uma Política Educacional da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil
 

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