As orações de ano novo não devem ser somente por você mesmo!.

27/12/2018

Colossenses 3.12-17

Leituras: 1 Samuel 2.18-20.26; Lucas 2. 4-52

Estimada Comunidade e estimados rádio-ouvintes:

Os três textos previstos para este primeiro domingo após Natal falam de crescimento. Samuel crescia diante de Javé e era estimado por Javé e pelo povo. Jesus crescia em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e das pessoas. A comunidade cristã de Colossos, da mesma forma, é estimulada a crescer diante de Deus e das pessoas, cultivando aquilo que recebeu de Cristo: o perdão, a graça, a sabedoria, o amor, a paz.
O texto da carta aos Colossenses traz conselhos práticos para a vivência nas comunidades. O autor (apóstolo Paulo?) fala de como devem viver as pessoas cristãs.
V. 12-15 – As virtudes que se mencionam nesses versículos – misericórdia, bondade, humildade, paciência, perseverança, delicadeza, gratidão, perdão e amor - estão primordialmente orientadas à vida social, e não simplesmente ao crescimento pessoal.
V. 15-17 – O autor mostra algumas ferramentas para que a comunidade cumpra esse objetivo. A mais importante delas é a Santa Ceia. A expressão “sejam agradecidos” não é genérica, mas lembra especificamente que nós não somos apenas cristãos individualistas, mas somos o corpo visível de Cristo aqui na terra.

O autor não despreza a fé individual, mas ele diz que Jesus deseja ver os sinais de nossa fé na vivência comunitária. Pois, ninguém se reveste da nova humanidade sozinho. Vestir-se de “sentimentos de compaixão, bondade, humildade, mansidão, paciência”, suportar-se e perdoar-se mutuamente “do mesmo modo que o Senhor nos perdoou”, vestir--se com o amor, a paz de Cristo reinar no coração... permanecer na palavra de Cristo... nada disso se vive sozinho. Somente permanecemos assim em Cristo se vivermos como “membros de um mesmo corpo”, ou seja, auxiliando-nos e encorajando-nos mutuamente. Por isso, nossas igrejas precisam ser um espaço de auxílio e encorajamento mútuo para essa vivência concreta em Cristo.
Isso talvez seja um pouco difícil de compreender porque nos acostumamos a entender a fé e a religião como algo individual. Não damos muita importância ao testemunho comunitário.

Por exemplo, estamos nos últimos momentos de 2018. Logo vamos celebrar a entrada de um ano novo. As promessas, ritos, roupas, comidas de ano novo – quase todas elas têm a ver somente com atitudes individuais. Cada pessoa quer ter sorte, prosperidade, dinheiro, amor, felicidade – para si mesma.
Mas nem sempre foi assim. Dizem que o primeiro povo a celebrar a festa de passagem – a 4mil anos atrás – foi o povo da Mesopotâmia, área que corresponde hoje aos territórios de Iraque, Kuwait, Síria e Turquia. Por dependerem da agricultura para sobreviver, eles celebravam o fim do inverno e início da primavera, época em que se iniciava uma nova safra de plantação. Com isso, a festa de passagem dos mesopotâmicos não se dava na noite do dia 31 de dezembro para 1º de janeiro, mas sim do dia 22 para o 23 de março, data do início da primavera no Hemisfério Norte. Foi somente com a introdução de um novo calendário no Ocidente, em 1582 - o calendário gregoriano, adotado pelo papa Gregório 13 - que o primeiro dia do novo ano passou a ser 1º de janeiro.

As celebrações de passagem do povo da Mesopotâmia representavam esperança para toda a comunidade. A oração por boas colheitas era uma oração comunitária. Hoje em dia individualizamos nossas orações e os rituais. Cada pessoa faz sua oração, seu pedido, seu ritual somente por si mesmo.
Por exemplo, em Salvador, a Igreja do Senhor do Bonfim é o principal ponto da cidade na última sexta-feira do ano, chamada de Sexta-feira da Gratidão. Fiéis de todo o país vão até o templo para pedir proteção para o próximo ano e levar objetos para benzer, como colares, as famosas fitinhas do bonfim, chaves de casa, fotos e até o carro. Apesar da multidão de pessoas que ali se reúnem, cada pessoa está aí orando por si mesma, ou no máximo por sua família.

Em todas as praias do Brasil, seguidores de Iemanjá costumam passar o Réveillon no litoral para fazer oferendas ou pular as sete ondas. As bênçãos que esperam alcançar são para si mesmos.

Também em nossas igrejas é assim. Oramos por nós mesmos.

Não está errado orar por si e por sua família. Afinal, estamos tão decepcionados com nossos governantes e os poderes do Estado, que cada qual trata de cuidar de si mesmo. Mas isso é insuficiente, isso não basta. Jesus nos convida a construir uma nova realidade, não somente a desejá-la para si mesmo. Jesus nos convida a construir uma nova sociedade, um novo mundo, onde as relações entre as pessoas e com toda a Criação sejam diferentes das relações que costumamos ver no dia-a-dia.

Muitas pessoas pedem somente para si mesmas, porque elas entendem que o universo está tomado de poderes e mistérios hostis à felicidade do ser humano e que podemos tirar alguma vantagem pessoal desse conflito se tivermos feitos os sacrifícios necessários para acalmar os espíritos.

A Frígia, onde está localizada a cidade de Colossos, é uma região vulcânica da atual Turquia. Nessa região havia frequentes terremotos. Em 61 d.C., a cidade foi quase completamente destruída por um terremoto, juntamente com as cidades vizinhas de Laodiceia e Hierápolis. Esses fenômenos faziam o povo crer que a região seria um campo de batalha entre os espíritos dos céus e os espíritos dos infernos. Para acalmar os espíritos exigiam-se rigorosas práticas ascéticas, como a observância de festas anuais, mensais ou de sábados (2.16), dando culto aos anjos (2.18), abstinência de vinho e de carne etc. Além disso, a população sofria a exploração econômica imposta pelo Império Romano. Havia amos e escravos (3.22 e 4.1), uma forte concepção patriarcalista, em que o homem é visto como superior à mulher (3.18-19). Entendia-se tudo isso como vontade de Deus e qualquer revolta contra esse sistema significaria irritar os espíritos que iriam então castigar as pessoas com catástrofes.

A carta aos Colossenses enfatiza que Jesus é o Senhor da Criação. Você quer viver sob a proteção de Deus? Então revista-se dos valores do Reino de Deus, torne-se cada dia mais parecido com Cristo.

A carta aos Colossenses quer libertar as pessoas dos temores e das angústias de um universo falsamente sacralizado e misterioso. Ao mesmo tempo, quer nos mostrar onde podemos encontrar a verdadeira proteção e as bênçãos de Deus.

Mas a Palavra de Deus já nos alerta: Nossa espiritualidade individual é importante, mas não é suficiente. É preciso que nos revistamos das atitudes de Cristo na nossa maneira de conviver com outras pessoas e com a Natureza. Revestir-se com atitudes de Cristo é o mesmo que revestir-se de Cristo (cf. Rm 13.12,14; Gl 3.27). Os conselhos práticos para cada pessoa no capítulo 3 procuram fortalecer essa nova humanidade, constituída a partir dos ensinamentos de Cristo.

A comunidade cristã deve ser a semente de uma nova humanidade. Isso significa, que devemos dar o exemplo. Deixar as ações que visam egoisticamente aos próprios interesses em troca de ações à serviço do bem comum. Afinal, se eu não preciso mais do que meu irmão ou minha irmã, então tratemos de construir um mundo onde o bem-estar de todos seja possível.
Portanto, se você realmente deseja viver uma realidade nova em 2019, então sugiro que você copie as recomendações da carta aos colossenses 3.12-17 como os seus propósitos para o ano de 2019. Não trate a fé apenas como uma questão individual, entre você e Deus.

No próximo ano, vista-se de misericórdia, de bondade, de humildade, de delicadeza, de paciência. Não se irrite facilmente, perdoe, caso você tiver motivo de queixa contra outra pessoa. Assim como o Senhor perdoou você, perdoe com generosidade. E, acima de tudo, tenha amor, pois o amor une perfeitamente todas as coisas. E que a paz que Cristo dá dirija você nas suas decisões, pois foi para esta paz que Deus lhe chamou a fim de formar um só corpo, uma comunidade. E seja sempre agradecido, pois desta forma a mensagem de Cristo, com toda sua riqueza, viverá no seu coração!

Que este novo ano seja uma bênção para todos nós. Que Deus nos conceda a sua paz, graça e misericórdia. Que possamos espalhar sementes de sensibilidade, solidariedade e aconchego. Que o Deus da vida sopre sobre nós a sua brisa suave e refrescante. Que este novo ano seja cheio de encontros, diálogos...(re)construção. Que novos horizontes se abram para nós.

Mas não devemos esquecer! Tudo o que você deseja para você somente será possível se você desejar e lutar para que as mesmas coisas aconteçam também ao seu redor e beneficiem também outras pessoas. Seja você um exemplo de pessoa que se revestiu das atitudes de Cristo. Seja você uma bênção transformadora na vida das pessoas e na Criação de Deus que convive com você.+ Amém. 
 


Autor(a): Nilton Giese
Âmbito: IECLB / Sinodo: Sudeste / Paróquia: Belo Horizonte (MG)
Área: Confessionalidade / Nível: Confessionalidade - Prédicas e Meditações
Área: Comunicação / Nível: Comunicação - Programas de Rádio
Testamento: Novo / Livro: Colossenses / Capitulo: 3 / Versículo Inicial: 12 / Versículo Final: 17
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 50651
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Hebreus 13.20-21
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