Alerta sobre transgênicos - 1999

Manifesto da Presidência da IECLB

18/08/1999

Falar em alimentos produzidos com sementes transgências evoca reações as mais diversas, desde a euforia diante do avanço científico-tecnológico até o medo de contaminação bacteriana do ambiente e da humanidade.

O que mais se lê e se ouve nos meios de comunicação é que a produção de sementes transgênicas traria grandes benefícios em termos de qualidade e quantidade de produção, além da redução do uso de inseticidas e herbicidas. Por isso dizem que a transgenia é um processo irreversível.

Quem está veiculando esse tipo de informação? São em grande parte vozes ligadas a grandes empresas nacionais ou internacionais, como a Monsanto, que dominam e manipulam a referida tecnologia ou mesmo a monopolizam. O que as move em sua paixão de nos convencer? Será que é o aumento de produção dos pequenos agricultores, que talvez nem dinheiro suficiente tenham para comprar tal semente? Será que é o aumento de produção dos latifúndios nacionais, para poderem concorrer no mercado internacional? Ou será que é o próprio lucro das empresas multinacionais que produzem e monopolizam sementes transgênicas?

Mas também se ouvem vozes muito críticas, como, p. ex., o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC), a Carta do IX Seminário Regional de Alternativas à Cultura do Fumo - realizado pelas Dioceses de Santa Maria, Santa Cruz do Sul e Cachoeira do Sul em cooperação com o Centro de Aconselhamento ao Pequeno Agricultor da IECLB (CAPA) -, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), o Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI) e outros. Todas essas vozes alertam, com ênfases distintas, p. ex.:

- que a tecnologia dos transgênicos representa altos riscos previsíveis e imprevisíveis para o ambiente e a humanidade, em especial aos agricultores e consumidores;

- que o controle sobre as sementes está sendo tirado das mãos dos agricultores e passando para um pequeno grupo de empresas transnacionais associadas à produção de agrotóxicos, que passarão a ter controle total sobre as mesmas, aumentando ainda mais a concentração da riqueza agrícola nas mãos destas indústrias;

- que o produto agrícola não transgênico é uma fonte certa de lucro. Infestando o mundo de produtos transgênicos, os Estados Unidos pretendem ser o único (país) a oferecer produtos limpos e se apropriar desta fatia do mercado internacional na agricultura. (cf. referida carta do IX Seminário Regional)
Dentre os riscos que os alimentos transgênicos podem oferecer, causa especial preocupação dos cientistas e da sociedade civil em geral:

- a falta de estudos e pesquisas sobre os efeitos do plantio e consumo de transgênicos;

- o aumento ou potencialização dos efeitos de substâncias tóxicas naturalmente presentes nas plantas que tenham o seu material genético manipulado;
- o aumento das alergias alimentares, por se tratar de novas proteínas ou novos compostos;

- a possibilidade de se desenvolver resistência bacteriana, pelo uso de genes marcadores na construção do organismo geneticamente modificado que podem conferir resistência a antibióticos;

- o aumento de resíduos de agrotóxicos nos alimentos e nas águas de abastecimento, pelo uso em muito maior quantidade dessas substâncias em plantas resistentes às mesmas;

- além de uma série de danos ambientais que indiretamente comprometerão a inocuidade (o que é inofensivo) dos alimentos, como desenvolvimento de resistências em insetos e plantas invasoras ou a contaminação genética da flora silvestre através da dispersão destes genes. (cf. circular do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor)

Essas e tantas outras vozes críticas e preocupadas bastam para clamarmos, com o salmista, para os quatro ventos:

Ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém,
o mundo e os que nele habitam. (Salmo 24.1)

A criação não é nossa propriedade. Não podemos fazer com ela o que bem entendemos. Dono da criação é Deus. Ele criou os seres humanos com a tarefa de cuidar, guardar e cultivar a boa criação de Deus. Somos, portanto, capatazes apenas e teremos que prestar contas diante do Criador. É verdade que ele nos deu inteligência para criar e desenvolver recursos novos que favorecem ou prejudicam esse cultivar. Critério para qualquer pesquisa científica somente poderá ser este: As inovações científicas e tecnológicas servem à preservação e promoção da vida humana, vegetal e natural? Enquanto persistirem dúvidas a respeito, como acontece no caso dos transgênicos, essas descobertas ainda deverão ser testadas, pesquisadas e aperfeiçoadas, antes de serem colocadas em prática, com segurança e responsabilidade para o bem comum.


Por isso registramos, com alegria e esperança, o fato de que o juiz Antônio Souza Prudente, da 6ª Vara Federal de Brasília, confirmou a suspensão do plantio de soja transgênica (geneticamente modificada) no país até que seja feito Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (cf. Zero Hora de 13/08/1999, p. 28).

Conclamamos, portanto,

- que cientistas ouçam as perguntas levantadas e pesquisem o assunto com responsabilidade;

- que os legisladores e governantes não se deixem pressionar por interesses econômicos de empresas multinacionais, mas tenham como objetivo maior a socialização das descobertas científicas para que sirvam ao bem comum;

- que todo o povo assuma a sua responsabilidade de atalaia e vigia para que a vida seja preservada e promovida.

Porto Alegre, 18 de agosto de 1999

Huberto Kirchheim

Pastor Presidente
 


Autor(a): Huberto Kirchheim
Âmbito: IECLB / Instância Nacional: Presidência
Natureza do Texto: Manifestação
Perfil do Texto: Manifestação oficial
ID: 12597
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