A Bíblia e a fé

03/03/2010

Pessoas cristãs são privilegiadas. Lidam com aspectos ligados à fé. Dentro da nossa confessionalidade luterana é normal sermos batizados como crianças e, depois, seguimos os passos normais de uma vida normal dentro da Igreja. Muitas vezes, no entanto, nem tão dentro da Igreja assim. Na Igreja ouvimos falar que é importante ler a Bíblia. Mas este livro é, de fato, tão importante para nossa fé? Será que a Bíblia não deveria ser, muito mais, apenas uma boa muleta que podemos vir a utilizar em algum momento de dificuldade mais aguda, como muitas pessoas efetivamente fazem? Será que ler e meditar nos textos deste livro traz, realmente, grandes vantagens?

Lucas, um historiador/escritor/ discípulo que pesquisou acuradamente os fatos para relatar com fidelidade a respeito de Jesus, não conseguiu chegar a nenhuma conclusão a respeito do Mestre, a não ser olhando para Ele a partir do Antigo Testamento. Lucas tem o argumento da legitimidade do Antigo Testamento colocado na boca de Jesus, como podemos ler em 24.25-32. Esta é uma passagem que evidencia que a Escritura queima em nossos corações, por ser palavra de Deus, testemunho da ação de Deus, palavra que promove fé, transformação e compromisso.

1.A palavra bíblica purifica a vida, promove obediência, torna a fé ativa no amor.

No texto de 1 Pedro 1.22 vemos que, a partir da Palavra, acontecem transformações pessoais e coletivas. Ou seja, a Bíblia não é um amuleto carregado para cima e para baixo, mas seu conteúdo exige de seus leitores respostas conseqüentes, respostas de fé.

O termo “fé” incomoda muita gente. Em nossos dias muitos psicólogos preferem chamar fé de ego, onde as pessoas, por si mesmas, seriam capazes de avançar na compreensão de sua vida. Para nós, no entanto, “fé” é uma categoria cristã concedida como dom exclusivo da graça de Deus. Em vários textos bíblicos  vemos que “fé” é um empreendimento de Deus em nosso favor. É um resultado da relação da pessoa humana com Deus. E esta relação, com seu resultado, compromete a vida humana de forma radicalmente nova. Ou seja, a Palavra nos faz colocar o nosso coração no coração de Deus.

A isto Pedro chama de regeneração a partir da semente da Palavra (1Pe 1.23). Isto é humano, sim, mas estritamente cristão, estritamente proveniente da palavra bíblica. Só em relação com Deus esta qualidade é possível ao ser humano. Como lemos numa sitação de Fowler, a fé “na sua melhor forma assume o aspecto de serenidade, coragem, lealdade e serviço: uma tranqüila confiança e alegria que capacita a pessoa a sentir-se em casa no universo, e a achar sentido no mundo e em sua própria vida, um sentido que seja profundo e último e que seja estável, não importando o que possa acontecer à pessoa no nível dos eventos imediatos.”

2. Fé bíblica é viva e permanente.

A fé é a experiência mais profunda, mais rica e mais pessoal que pode existir. Ela é uma qualidade da pessoa e não das circunstâncias que a rodeiam. A fé é uma orientação da personalidade em relação a si mesma, em relação ao próximo e ao universo. Esta é a fé viva e permanente, não tímida, que transporta montes (Mt 17.20; 21.21s). No entanto, ela só existe quando fundamentada na Palavra, igualmente viva e permanente (v.23).

Se a base da fé não for a Palavra, então será apenas uma convicção própria. A palavra bíblica é formadora e fundadora de fé cristã. As experiências, quer pessoais, quer coletivas, não tem a capacidade de produzir fé. Afinal, a fé procede daquilo que ouvimos. E o que ouvimos é a “palavra de Cristo”, pregada pelos apóstolos e crida pela Igreja. Isso pode “significar duas coisas: o que se ouve tem origem no que Cristo disse, o que Cristo disse é a causa formal e material da pregação; ou então, o que se ouve ressoa sob a ordem de Cristo (cf. Lc 5.5). Em ambos os casos, a autoridade desta palavra é ressaltada. É a palavra mesma de Cristo.” (Leenhardt)

A palavra de Cristo, que é Deus entre nós, atualizada pelo Espírito Santo, não esmorece, não murcha e nem seca. A palavra de Deus registrada na Bíblia, traz uma nova dimensão de confiança, que vai do Gênesis ao Apocalipse. A Bíblia toda traz vida e constância à fé de cada pessoa. Não apenas aqueles textos bíblicos escolhidos de acordo com o gosto e preferência de cada pessoa.
    
3. Palavra ativa a fé para o amor a Deus e o amor ao próximo.

Ao lermos o primeiro capítulo da primeira carta de Pedro, entendemos que a comunidade está purificada pela obediência à verdade. Este é o resultado da leitura, meditação e estudo da Palavra. A Bíblia suscita a fé que, por sua vez, se torna operosa.  Purificação é conseqüência de um ativo trabalho de amor. Não há purificação que fique restrita à vida pessoal. A nova vida de fé sempre será testemunhada e vivenciada na comunhão com outras pessoas, sejam elas da mesma fé ou não.

A fé é ativada no serviço quando se entende a Palavra de Deus. Isso, evidentemente, não é apenas conhecimento intelectual, mas também espiritual. O Espírito de Deus precisa abrir ouvidos e mentes para que cada leitor/leitora entenda o que Ele próprio quer dizer. Somente quando se busca esse entendimento em oração, a Bíblia passará a falar diretamente ao coração. Não podemos determinar ao Espírito Santo o que queremos aprender ou como queremos ser, mas podemos clamar por entendimento. Por isso, ter uma fé ativa no amor a Deus e no amor ao próximo, implica em clamar pela condução e orientação do Espírito Santo (1Co 2.10-16).

Como a Bíblia não caiu do céu, prontinha, antes é um apanhado da vida de fé do povo de Deus ao longo dos séculos, por origem é um livro que visa o social. Ela é relato de experiência com Deus, é relato de experiência de fé ativa. Ela, forçosamente, nos leva a um comprometimento com outras pessoas. Esse é seu poder purificador, por excelência: transformando situações ao redor de cada um/uma de nós.

Para discutir e concretizar: Como a sociedade está sendo purificada ao nosso redor, a partir da nossa leitura bíblica? Que passos concretos nós podemos começar a dar para que a Bíblia seja promotora de fé transformadora no lugar onde estamos?

Senhor, nós te pedimos:
Dá-nos o desejo, de por tua Palavra procurar.
Dá-nos a luz, para a tua Palavra encontrar.
Dá-nos o Espírito, para em tua Palavra crer.
Dá-nos o ânimo, para a tua Palavra viver.

P. Rolf Rieck
Par.São Mateus

Bibliografia:
Franz J LEENHARDT. Epístola aos Romanos. São Paulo: Aste, 1969
Hans Walter WOLFF. Zugang zur Bibel. Stuttgart – Berlin: Kreuz Verlag, 1980
James W. FOWLER. Estágios da fé. São Leopoldo: Sinodal, 1992 (p.20-86)

REDE DE RECURSOS
+
ECUMENE
+
A ingratidão é um vento rude que seca os poços da bondade.
Martim Lutero
© Copyright 2019 - Todos os Direitos Reservados - IECLB - Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil - Portal Luteranos - www.luteranos.com.br